Nossa região, meu caro leitor, não foi sempre um sítio morto e sem canções, como é hoje. Antigamente havia aqui um ativo comércio de farinha. De dez léguas ao redor, os granjeiros nos traziam seu trigo para moer. Por toda parte, à volta da aldeia, as colinas estavam cobertas de moinhos de vento. À direita e à esquerda, só se viam asas de moinhos que volteavam ao sopro do mistral; acima dos pinheiros, filas de burricos carregados de sacos, subindo e descendo ao longo dos caminhos; e a semana inteira era o prazer de ouvir o estalido dos chicotes, o ruído seco do tecido dilacerado e o “Dia hue!” dos ajudantes dos moleiros. Aos domingos, íamos em bandos aos moinhos. Lá no alto, os moleiros pagavam o muscat. As moleiras eram belas como rainhas, com seus fichus de rendas e suas cruzes de ouro. Eu levava meu pífaro, e até altas horas da noite dançavam-se farândolas. Aqueles moinhos, como o senhor vê, eram a alegria e a riqueza da nossa terra.
Infelizmente, franceses de Paris tiveram a idéia de estabelecer uma moagem a vapor, na estrada de Tarascon. Tudo belo, tudo novo! O povo tomou o hábito de enviar o trigo aos novos moageiros, e os pobres moinhos de vento ficaram sem trabalho. Durante algum tempo tentaram lutar, mas o moinho a vapor foi o mais forte. Um após outro — pobrezinhos! — foram todos obrigados a fechar. Não se viu mais virem os burrinhos. Nada de vinho!... Nada de farândolas!... O mistral soprava forte, as asas permaneciam imóveis... Depois, um belo dia, a municipalidade mandou demolir todas essas ruínas, e semearam-se em seu lugar vinha e oliveiras.
Entretanto, em meio à derrocada, um moinho se havia mantido e continuava a girar corajosamente, sobre a colina, nas barbas dos moageiros. Era o moinho de Mestre Cornille, este mesmo onde estamos fazendo serão, neste momento.
Mestre Cornille era um velho moleiro. Havia sessenta anos vivia metido na farinha. A instalação das moagens a vapor tinha-o deixado como louco. Durante oito dias viram-no correr pela aldeia, a reunir em tumulto toda a gente à sua volta, e a gritar, com todas as suas forças, que queriam envenenar a Provença com a farinha dessas fábricas.
— Não vão lá embaixo — dizia ele. — Aqueles bandidos, para fazer o pão, servem-se de vapor, que é uma invenção do diabo, enquanto que eu trabalho com o mistral e o transmontano, que são o hálito do bom Deus!...
E ele encontrava, como estas, uma quantidade de belas palavras em louvor dos moinhos de vento, mas ninguém as escutava.
Então, com uma raiva maligna, o velho fechou-se no moinho e viveu completamente só, como um animal selvagem. Nem mesmo quis conservar junto de si a neta, Vivette, uma menina de quinze anos, que, mortos os pais, não tinha ninguém senão o avô no mundo. A pobre pequena foi obrigada a ganhar a vida e a se empregar ora aqui, ora ali, nas fazendas, para a colheita, os bichos-da-seda ou os olivais. Entretanto o avô parecia amá-la muito. Chegava a fazer freqüentemente quatro léguas a pé, na soalheira, para ir vê-la na casa em que trabalhava. Uma vez junto dela, passava horas inteiras a contemplá-la, chorando...
Pensava-se, na região, que o velho moleiro, deixando sair Vivette, agira por avareza. Não o honrava ter consentido que a neta assim deambulasse de uma fazenda para outra, exposta às brutalidades dos vaîles e a todas as misérias que cercam as jovens, nessas condições de trabalho. Achava-se também muito malfeito que um homem da reputação de Mestre Cornille, que até ali era respeitado, fosse agora pelas ruas como um verdadeiro boêmio, pés nus, o boné furado, a faixa da cintura em tiras... O fato é que, no domingo, quando o víamos entrar para a missa, tínhamos vergonha por ele, nós outros os velhos; e Cornille o sentia tão bem, que não mais ousava vir sentar-se no banco dos administradores da paróquia. Ficava sempre no fundo da igreja, junto à pia de água-benta, com os pobres.
Na vida de Mestre Cornille havia alguma coisa obscura. Havia muito tempo ninguém, na aldeia, lhe levava mais trigo, e no entanto as asas do seu moinho iam sempre fazendo seu ofício, como antes. À tarde, encontrava-se pelos caminhos o velho moleiro, tangendo à sua frente o burro carregado de grandes sacos de farinha.
— Boas tardes, Mestre Cornille! — gritavam-lhe os camponeses. — Então, sempre vai indo a moagem?
— Sempre, meus filhos — respondia o velho com ar altivo. — Deus seja louvado, não é trabalho o que nos falta.
Então, se lhe perguntassem de onde podia vir tanto trabalho, ele colocava um dedo sobre os lábios e respondia gravemente:
— Silêncio! Eu trabalho para a exportação...
Jamais se pôde tirar mais nada dele, além disso. Quanto a meter o nariz no seu moinho, nem se devia sonhar. A própria Vivette não entrava ali. Quando se passava diante dele, via-se a porta sempre fechada, as grandes asas sempre em movimento, o velho burro retouçando a erva, sobre a plataforma, e um gatão magro que tomava sol no peitoril da janela e olhava para a gente com um ar maldoso.
Tudo isso sugeria mistério e fazia tagarelar o mundo. Cada um explicava à sua maneira o segredo de Mestre Cornille, mas o rumor geral era que ele tinha em seu moinho mais sacos de dinheiro que de farinha.
Com o decorrer do tempo, entretanto, tudo se descobriu. Eis como:
Fazendo dançar a mocidade com o meu pífaro, percebi um belo dia que o mais velho dos meus rapazes e a pequena Vivette se haviam enamorado um do outro. No fundo, eu não ficara nem um pouco zangado, porque, apesar de tudo, o nome de Cornille era honrado entre nós; e dar-me-ia prazer ver saltitar em minha casa essa linda avezinha de Vivette. Somente, como nossos namorados tinham freqüentemente ocasião de estar juntos, eu quis, de medo de acidentes, regular o negócio imediatamente; e subi até o moinho, para trocar sobre o assunto duas palavras com o avô.
Ah! o velho feiticeiro! Era preciso ver de que maneira me recebeu! Impossível fazê-lo abrir a porta. Expliquei-lhe minhas razões, mal-e-mal, através do buraco da fechadura; e durante o tempo em que lhe falei, ficava esse ladrão de gato magro a soprar como um diabo, acima da minha cabeça. O velho não me deu tempo de terminar, e me gritou muito malcriadamente que retornasse à minha flauta; caso tivesse pressa de casar o rapaz, fosse procurar moças na fábrica...
O senhor imagine como o sangue me subia, ao ouvir essas más palavras. Contudo eu tive até bastante prudência para me conter, e, deixando o velho louco em sua mó, voltei para anunciar aos jovens o meu humilhante insucesso. Os pobres cordeirinhos não podiam acreditar. Pediram-me que lhes permitisse subirem os dois juntos ao moinho, para falar ao avô. Não tive coragem de recusar, e eis os namorados a caminho.
Justamente quando chegaram ao alto, Mestre Cornille acabava de sair. A porta estava fechada com duas voltas; mas o velho, ao sair, deixara a escada fora. Imediatamente os moços tiveram a idéia de entrar pela janela, para verem o que havia nesse famoso moinho.
Coisa singular! O quarto da mó estava vazio. Nem um saco, nem um grão de trigo; nem a menor farinha nos muros, nas teias de aranha... Não se sentia nem mesmo esse bom cheiro quente do grão de trigo triturado, que embalsama os moinhos. A braçadeira estava coberta de pó, e o gatão dormia em cima dela.
A peça de baixo tinha o mesmo ar de miséria e de abandono: um mau leito, alguns trapos sujos, um pedaço de pão sobre um degrau da escada; e, finalmente, num canto, três ou quatro sacos furados, de onde escapavam caliça e areia.
Era o segredo de Mestre Cornille! Era esse entulho que ele passeava à tarde pelas estradas, para salvar a honra do moinho e fazer crer que ali se produzia farinha... Pobre moinho! Pobre Cornille! Havia muito tempo os moageiros tinham-no feito perder os últimos negócios. As asas viravam sempre, mas a mó girava no vazio.
Os mocinhos voltaram, lavados em lágrimas, para me contar o que tinham visto. Senti o coração machucado ao ouvi-los. Sem perder um minuto, corri à casa dos vizinhos, contei-lhes a coisa em duas palavras, e concordamos todos em que era preciso levar imediatamente ao moinho de Cornille tudo que houvesse de grão em nossas casas. Tão logo foi dito, logo se fez. Toda a aldeia se pôs a caminho, e chegamos ao alto com uma procissão de burros carregados de trigo — trigo verdadeiro!
O moinho estava completamente aberto. Diante da porta, Mestre Cornille, sentado num saco de gesso, chorava, com a cabeça entre as mãos. Acabava de perceber, entrando, que durante sua ausência alguém penetrara em sua casa e surpreendera seu triste segredo.
— Pobre de mim! — dizia ele. — Agora não me resta senão morrer... O moinho está desonrado.
E soluçava de cortar o coração, chamando seu moinho por todas as espécies de nomes, falando-lhe como a uma pessoa viva.
Nesse momento os burros chegaram à plataforma, e nós nos pusemos todos a gritar bem alto, como nos belos tempos dos moleiros:
— Eh! Ó do moinho!... Ei! Mestre Cornille!
De súbito os sacos se acumulam diante da porta, e o belo grão ruivo rola abundantemente pela terra, de todos os lados.
Mestre Cornille arregalava os olhos. Apanhara um pouco de trigo no côncavo da velha mão, e dizia, rindo e chorando ao mesmo tempo:
— É trigo!... Senhor Deus! Trigo verdadeiro!... Deixem-me contemplá-lo...
Depois, voltando-se para nós:
— Ah! Eu sabia que vocês voltariam...
Queríamos levá-lo em triunfo até a aldeia.
— Não, não, meus filhos! É preciso, antes de tudo, que eu vá dar de comer ao moinho... Pensem! Há muito tempo que nada lhe pomos entre os dentes!
E todos nós tínhamos lágrimas nos olhos, de ver o pobre velho agitar-se para a direita e para a esquerda, destripando os sacos, vigiando a mó, enquanto o grão arrebentava e a fina poeira do trigo subia para o teto.
Justiça nos seja feita: a partir desse dia, nunca deixamos faltar trabalho ao velho moleiro. Depois, certa manhã, Mestre Cornille morreu, e as asas do nosso derradeiro moinho cessaram de virar, para sempre desta vez. Morto Cornille, ninguém continuou sua obra...
(Alphonse Daudet, Contos – Cultrix, SP, 1993)
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CONTOS BEM CONTADOS
Este blog contém uma seleção de contos literários da literatura universal. Leitura agradável e instrutiva, útil especialmente para estebelecimentos de ensino e para leitura domiciliar. Foram selecionados por LEON BEAUGESTE, autor do livro A VOLTA AO MUNDO DA NOBREZA, que pode ser apreciado e adquirido nos sites: http://www.fatoshistoricos.com.br/ e http://www.mundodanobreza.com.br/.
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segunda-feira
O SACRISTÃO - Somerset Maugham
Houvera um batizado aquela tarde, na igreja de São Pedro, e Albert Edward Foreman ainda estava com sua batina de sacristão. Ele reservava sua melhor indumentária do cargo para casamentos e funerais, e a que usava naquele momento era a segunda melhor. Gostava de usar a batina, por ser um digno símbolo das suas funções, e se sentia insuficientemente vestido sem ela. Cuidava do traje com todo carinho, e durante os dezesseis anos no cargo tivera uma série delas, mas nunca fora capaz de jogá-las fora quando desgastadas pelo uso, guardando-as embrulhadas em papel marrom nas gavetas inferiores do guarda-roupa.
Estava esperando apenas o vigário sair, para poder arrumar tudo, trancar a igreja e ir para casa. O vigário passou para o presbitério, fez uma genuflexão diante do altar e começou a caminhar numa das alas de bancos.
— “Que será que ele está procurando? — pensou. — Ele devia perceber que eu tenho de ir para casa tomar o meu chá”.
O vigário era um homem de seus quarenta anos, rosto corado e enérgico, que assumira o cargo recentemente. Albert ainda lamentava a perda do antecessor, um sacerdote da velha escola que pregava seus sermões monotonamente, com voz argêntea, e freqüentemente jantava com seus paroquianos mais aristocráticos. Gostava das coisas assim, não como esse novo vigário, que queria dar palpite em tudo. Mas Albert era tolerante, e nunca se agastava.
A Igreja de São Pedro era muito bem localizada, com paroquianos muito distintos. O novo vigário estivera antes junto a paroquianos de outro nível social, e era natural que demorasse um pouco a se adaptar aos novos.
— “Mudanças assim contundem as pessoas — pensava Albert, — mas ele acabará aprendendo”.
Quando o vigário se aproximou de Albert a ponto de poder falar-lhe no tom de voz baixo adequado ao lugar sagrado, parou e o chamou.
— Foreman, venha comigo à sacristia, que eu preciso conversar um pouco com você.
— Pois não, senhor.
Enquanto caminhavam juntos, Albert comentou:
— Bonito batizado, senhor. E foi muito interessante como a criança parou de chorar exatamente quando o senhor a tomou nos braços.
— Já notei que isso acontece com freqüência. De fato eu consegui boa prática em lidar com bebês.
Albert ficou um tanto surpreso ao encontrar na sacristia os dois conselheiros da paróquia, que ele não vira entrar. Cumprimentou-os cortesmente. Eles ocupavam o conselho há muito tempo, quase tanto quanto o dele como sacristão. Estavam sentados atrás de uma grande mesa, e o vigário ocupou a cadeira vaga entre os dois. Albert sentou-se do outro lado da mesa, enquanto procurava, com certa intranqüilidade, descobrir o que podia ter acontecido. Lembrava-se de quando o organista criou uma encrenca, e dos aborrecimentos que os três tiveram para acertar as coisas. Numa igreja como a de São Pedro não se podiam admitir escândalos. O vigário tinha um ar de benevolência, mas os outros estavam um tanto a contra-gosto.
— “Ele os deve ter repreendido — pensou o sacristão. — Parece que ele os convenceu a fazer alguma coisa, mas não estão gostando nem um pouco”.
— Foreman — começou abruptamente o vigário, — temos algo bem desagradável a comunicar-lhe. Você está aqui há bastante tempo, e estamos de acordo em que vem desempenhando a contento as suas funções — os outros dois assentiram, com uma inclinação da cabeça. — Mas uma informação surpreendente chegou ao meu conhecimento: você não sabe ler nem escrever.
— O vigário anterior sabia disso — replicou Albert sem nenhum embaraço. — Ele me disse que isso não tinha importância, e que para o gosto dele já havia educação em excesso no mundo.
— Isto é a coisa mais espantosa que eu já ouvi — replicou um dos conselheiros. — Quer dizer que você foi sacristão desta igreja dezesseis anos, sem saber ler nem escrever?
— Eu comecei a trabalhar aos doze anos, senhor. O cozinheiro do meu primeiro emprego tentou ensinar-me, mas parece que eu não tinha embocadura para o negócio. E daí para diante, sempre mexendo com uma coisa e outra, não me sobrava tempo. De fato eu nem queria, pois estou cansado de ver essa gente perdendo tempo em ler, quando podia estar fazendo alguma coisa útil.
— Mas você não se interessa em ler os jornais? Nunca quis escrever uma carta?
— Não, senhor. Vivo muito bem sem isso. De uns tempos para cá os jornais trazem fotografias, e assim eu fico sabendo o que acontece por aí. Além disso, a minha mulher é instruída, e escreve todas as cartas de que eu preciso. Não sou nenhum imprestável por isso.
Os dois conselheiros olhavam para o vigário, um tanto perturbados, e depois baixaram os olhos para a mesa.
— Bem, Foreman. Eu discuti o assunto com os conselheiros, e eles concordaram em que numa igreja do porte da nossa não é admissível um sacristão analfabeto. Quero que você compreenda, Foreman, que não tenho nenhuma reclamação contra você, pois tenho em alto conceito o seu caráter e a sua capacidade, além disso você desempenha bem suas funções. Mas não temos o direito de arriscar-nos a que algum acidente possa ocorrer devido à sua lamentável ignorância. É por motivo de prudência, e também por princípio.
— Você não conseguiria aprender, Foreman? — perguntou um dos conselheiros.
— Não, senhor. É muito tarde para isso. Se eu não consegui quando era criança, acho pouco provável que consiga enfiar as letras na cabeça agora.
— Não queremos agir com brutalidade, Foreman, mas os conselheiros e eu já decidimos dar-lhe três meses de prazo. Se até lá você não conseguir, teremos de dispensá-lo.
— Lamento, senhor, mas isso será perda de tempo. Burro velho não pega marcha. Vivi muitos anos sem saber ler e escrever, e modéstia à parte desempenhei bem o meu papel sem isso. Mesmo que eu tivesse condições para aprender agora, não me interessaria nem um pouco.
— Neste caso, Foreman, lamento dizer-lhe que o dispensamos.
— Sim, senhor. Com prazer eu entregarei meu cargo tão logo o senhor contrate um substituto.
Depois que se despediu dos três e fechou atrás de si a porta da sacristia, Albert relaxou o ar de serena dignidade com que suportara o golpe, e seus lábios se contraíram. Pendurou a batina no armário, vestiu o sobretudo e saiu da igreja pensativo. Não tomou o caminho de casa, onde o esperava o seu chá. De coração oprimido, caminhou lentamente, sem saber de momento o que fazer da vida. Não lhe passava pela cabeça voltar à função de mordomo, depois de ser o dono de si mesmo por tanto tempo, pois quem de fato administrava aquela igreja era ele. Tinha economizado bastante, mas não o suficiente para viver sem trabalhar, e além disso a vida estava cada dia mais cara.
Nunca pensara que viria a enfrentar esse problema. Afinal de contas, os sacristães da Igreja de São Pedro eram vitalícios, tanto quanto os Papas. Pensara até nas elogiosas referências que o vigário faria, no sermão seguinte à sua morte, sobre a dedicação e o caráter exemplar do falecido sacristão Albert Edward Foreman. E suspirou profundamente.
Albert não fumava nem bebia. Ou melhor, não em termos tão absolutos. Tomava uma cerveja no jantar, algumas vezes, e fumava um cigarro quando se sentia preocupado ou cansado. Era bem o caso, naquele momento, e como não costumava trazê-los consigo, começou a olhar de um lado e outro daquela rua movimentada, à procura de uma tabacaria. Havia por ali lojas de todos os tipos, mas nenhuma tabacaria. Foi até o fim da rua, e nada.
— “Que coisa estranha!” — pensou.
Para não haver dúvidas, voltou ao início da rua: nenhuma tabacaria.
— “Não é possível que eu seja o único homem, em toda esta rua, que de vez em quando quer dar uma tragada. E acho que um comerciante poderia ter bom lucro com uma loja dessas aqui”.
Albert tomou o caminho de casa, e ia pensando:
— “Estranho, como as idéias ocorrem quando a gente menos espera”.
Em casa, enquanto tomava o chá, a mulher comentou:
— Você está silencioso hoje, Albert.
— Estou pensando.
Examinou os vários aspectos do assunto, e no dia seguinte voltou àquela rua. Encontrou facilmente uma loja adequada, alugou-a, e um mês depois despedia-se do emprego na igreja, iniciando suas novas atividades de comerciante de tabaco e jornaleiro. A mulher o censurou pela queda de status, mas ele argumentou que se deve dançar conforme a música, e que agora ele ia dar a César o que é de César.
Albert saiu-se muito bem. Tão bem que depois de um ano resolveu montar outra loja, a ser confiada a um gerente. Procurou uma rua nas mesmas condições, que também não tivesse tabacaria, e a abasteceu convenientemente. Novo sucesso.
Ocorreu-lhe então que, se podia administrar duas, podia administrar meia-dúzia. E começou a andar pela cidade, à procura de ruas movimentadas desprovidas de tabacarias. Em dez anos, as lojas dele já eram nada menos que dez. Toda Segunda-feira ele as percorria, recolhia a renda e depositava num banco.
Um dia, quando fazia esses depósitos habituais, o funcionário do banco o avisou de que o gerente queria conversar com ele. Foi conduzido a uma sala, onde o gerente o recebeu sorridente:
— Sr. Foreman, gostaria de conversar sobre o seu saldo conosco. O senhor sabe exatamente o montante?
— Não em todos os centavos, mas tenho uma idéia bastante aproximada.
— Sem contar o que o senhor depositou hoje, é um pouco mais de trinta mil libras. É uma quantia muito alta para ficar simplesmente depositada, e eu acho que o senhor poderia lucrar bastante investindo-a.
— Não quero correr riscos, senhor, e prefiro tê-la garantida no banco.
— O senhor não precisa preocupar-se. Forneceremos para sua escolha uma lista de investimentos seguros, com lastro em ouro, que lhe trarão rendimento maior do que o banco pode oferecer.
— Nunca entendi de ações e títulos, e terei de deixar as aplicações para o senhor decidir.
— Não há problema. Tomaremos todas as providências necessárias. Basta o senhor assinar os papéis quando voltar ao banco.
— Está bem, mas como é que eu vou saber o que é que estarei assinando?
— Basta ler o texto dos próprios documentos.
— Acontece, senhor, que isso eu não posso fazer. Pode parecer estranho, mas não sei ler nem escrever, só sei assinar meu nome. E mesmo isso, só porque fui obrigado, quando entrei no ramo de negócios.
O gerente levou um susto tão grande, que saltou da cadeira.
— Isto é a coisa mais extraordinária que eu já ouvi!
— Mas é como eu lhe estou dizendo. Só tive a oportunidade de aprender quando já era bem idoso, e aí eu decidi não tentar. Uma espécie de obstinação.
O gerente olhava-o fixamente, como se fosse um monstro pré-histórico.
— Quer dizer que o senhor montou todo esse seu negócio e juntou uma fortuna de trinta mil libras sem saber ler nem escrever? Santo Deus! Imagino então o que o senhor teria conseguido, se soubesse.
Foreman deu uma gargalhada, e respondeu:
— Isso eu posso lhe dizer, direitinho: Seria sacristão na igreja de São Pedro.
(Somerset Maugham, Collected short stories – Penguin Books, Harmondsworth, 1971)
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Estava esperando apenas o vigário sair, para poder arrumar tudo, trancar a igreja e ir para casa. O vigário passou para o presbitério, fez uma genuflexão diante do altar e começou a caminhar numa das alas de bancos.
— “Que será que ele está procurando? — pensou. — Ele devia perceber que eu tenho de ir para casa tomar o meu chá”.
O vigário era um homem de seus quarenta anos, rosto corado e enérgico, que assumira o cargo recentemente. Albert ainda lamentava a perda do antecessor, um sacerdote da velha escola que pregava seus sermões monotonamente, com voz argêntea, e freqüentemente jantava com seus paroquianos mais aristocráticos. Gostava das coisas assim, não como esse novo vigário, que queria dar palpite em tudo. Mas Albert era tolerante, e nunca se agastava.
A Igreja de São Pedro era muito bem localizada, com paroquianos muito distintos. O novo vigário estivera antes junto a paroquianos de outro nível social, e era natural que demorasse um pouco a se adaptar aos novos.
— “Mudanças assim contundem as pessoas — pensava Albert, — mas ele acabará aprendendo”.
Quando o vigário se aproximou de Albert a ponto de poder falar-lhe no tom de voz baixo adequado ao lugar sagrado, parou e o chamou.
— Foreman, venha comigo à sacristia, que eu preciso conversar um pouco com você.
— Pois não, senhor.
Enquanto caminhavam juntos, Albert comentou:
— Bonito batizado, senhor. E foi muito interessante como a criança parou de chorar exatamente quando o senhor a tomou nos braços.
— Já notei que isso acontece com freqüência. De fato eu consegui boa prática em lidar com bebês.
Albert ficou um tanto surpreso ao encontrar na sacristia os dois conselheiros da paróquia, que ele não vira entrar. Cumprimentou-os cortesmente. Eles ocupavam o conselho há muito tempo, quase tanto quanto o dele como sacristão. Estavam sentados atrás de uma grande mesa, e o vigário ocupou a cadeira vaga entre os dois. Albert sentou-se do outro lado da mesa, enquanto procurava, com certa intranqüilidade, descobrir o que podia ter acontecido. Lembrava-se de quando o organista criou uma encrenca, e dos aborrecimentos que os três tiveram para acertar as coisas. Numa igreja como a de São Pedro não se podiam admitir escândalos. O vigário tinha um ar de benevolência, mas os outros estavam um tanto a contra-gosto.
— “Ele os deve ter repreendido — pensou o sacristão. — Parece que ele os convenceu a fazer alguma coisa, mas não estão gostando nem um pouco”.
— Foreman — começou abruptamente o vigário, — temos algo bem desagradável a comunicar-lhe. Você está aqui há bastante tempo, e estamos de acordo em que vem desempenhando a contento as suas funções — os outros dois assentiram, com uma inclinação da cabeça. — Mas uma informação surpreendente chegou ao meu conhecimento: você não sabe ler nem escrever.
— O vigário anterior sabia disso — replicou Albert sem nenhum embaraço. — Ele me disse que isso não tinha importância, e que para o gosto dele já havia educação em excesso no mundo.
— Isto é a coisa mais espantosa que eu já ouvi — replicou um dos conselheiros. — Quer dizer que você foi sacristão desta igreja dezesseis anos, sem saber ler nem escrever?
— Eu comecei a trabalhar aos doze anos, senhor. O cozinheiro do meu primeiro emprego tentou ensinar-me, mas parece que eu não tinha embocadura para o negócio. E daí para diante, sempre mexendo com uma coisa e outra, não me sobrava tempo. De fato eu nem queria, pois estou cansado de ver essa gente perdendo tempo em ler, quando podia estar fazendo alguma coisa útil.
— Mas você não se interessa em ler os jornais? Nunca quis escrever uma carta?
— Não, senhor. Vivo muito bem sem isso. De uns tempos para cá os jornais trazem fotografias, e assim eu fico sabendo o que acontece por aí. Além disso, a minha mulher é instruída, e escreve todas as cartas de que eu preciso. Não sou nenhum imprestável por isso.
Os dois conselheiros olhavam para o vigário, um tanto perturbados, e depois baixaram os olhos para a mesa.
— Bem, Foreman. Eu discuti o assunto com os conselheiros, e eles concordaram em que numa igreja do porte da nossa não é admissível um sacristão analfabeto. Quero que você compreenda, Foreman, que não tenho nenhuma reclamação contra você, pois tenho em alto conceito o seu caráter e a sua capacidade, além disso você desempenha bem suas funções. Mas não temos o direito de arriscar-nos a que algum acidente possa ocorrer devido à sua lamentável ignorância. É por motivo de prudência, e também por princípio.
— Você não conseguiria aprender, Foreman? — perguntou um dos conselheiros.
— Não, senhor. É muito tarde para isso. Se eu não consegui quando era criança, acho pouco provável que consiga enfiar as letras na cabeça agora.
— Não queremos agir com brutalidade, Foreman, mas os conselheiros e eu já decidimos dar-lhe três meses de prazo. Se até lá você não conseguir, teremos de dispensá-lo.
— Lamento, senhor, mas isso será perda de tempo. Burro velho não pega marcha. Vivi muitos anos sem saber ler e escrever, e modéstia à parte desempenhei bem o meu papel sem isso. Mesmo que eu tivesse condições para aprender agora, não me interessaria nem um pouco.
— Neste caso, Foreman, lamento dizer-lhe que o dispensamos.
— Sim, senhor. Com prazer eu entregarei meu cargo tão logo o senhor contrate um substituto.
Depois que se despediu dos três e fechou atrás de si a porta da sacristia, Albert relaxou o ar de serena dignidade com que suportara o golpe, e seus lábios se contraíram. Pendurou a batina no armário, vestiu o sobretudo e saiu da igreja pensativo. Não tomou o caminho de casa, onde o esperava o seu chá. De coração oprimido, caminhou lentamente, sem saber de momento o que fazer da vida. Não lhe passava pela cabeça voltar à função de mordomo, depois de ser o dono de si mesmo por tanto tempo, pois quem de fato administrava aquela igreja era ele. Tinha economizado bastante, mas não o suficiente para viver sem trabalhar, e além disso a vida estava cada dia mais cara.
Nunca pensara que viria a enfrentar esse problema. Afinal de contas, os sacristães da Igreja de São Pedro eram vitalícios, tanto quanto os Papas. Pensara até nas elogiosas referências que o vigário faria, no sermão seguinte à sua morte, sobre a dedicação e o caráter exemplar do falecido sacristão Albert Edward Foreman. E suspirou profundamente.
Albert não fumava nem bebia. Ou melhor, não em termos tão absolutos. Tomava uma cerveja no jantar, algumas vezes, e fumava um cigarro quando se sentia preocupado ou cansado. Era bem o caso, naquele momento, e como não costumava trazê-los consigo, começou a olhar de um lado e outro daquela rua movimentada, à procura de uma tabacaria. Havia por ali lojas de todos os tipos, mas nenhuma tabacaria. Foi até o fim da rua, e nada.
— “Que coisa estranha!” — pensou.
Para não haver dúvidas, voltou ao início da rua: nenhuma tabacaria.
— “Não é possível que eu seja o único homem, em toda esta rua, que de vez em quando quer dar uma tragada. E acho que um comerciante poderia ter bom lucro com uma loja dessas aqui”.
Albert tomou o caminho de casa, e ia pensando:
— “Estranho, como as idéias ocorrem quando a gente menos espera”.
Em casa, enquanto tomava o chá, a mulher comentou:
— Você está silencioso hoje, Albert.
— Estou pensando.
Examinou os vários aspectos do assunto, e no dia seguinte voltou àquela rua. Encontrou facilmente uma loja adequada, alugou-a, e um mês depois despedia-se do emprego na igreja, iniciando suas novas atividades de comerciante de tabaco e jornaleiro. A mulher o censurou pela queda de status, mas ele argumentou que se deve dançar conforme a música, e que agora ele ia dar a César o que é de César.
Albert saiu-se muito bem. Tão bem que depois de um ano resolveu montar outra loja, a ser confiada a um gerente. Procurou uma rua nas mesmas condições, que também não tivesse tabacaria, e a abasteceu convenientemente. Novo sucesso.
Ocorreu-lhe então que, se podia administrar duas, podia administrar meia-dúzia. E começou a andar pela cidade, à procura de ruas movimentadas desprovidas de tabacarias. Em dez anos, as lojas dele já eram nada menos que dez. Toda Segunda-feira ele as percorria, recolhia a renda e depositava num banco.
Um dia, quando fazia esses depósitos habituais, o funcionário do banco o avisou de que o gerente queria conversar com ele. Foi conduzido a uma sala, onde o gerente o recebeu sorridente:
— Sr. Foreman, gostaria de conversar sobre o seu saldo conosco. O senhor sabe exatamente o montante?
— Não em todos os centavos, mas tenho uma idéia bastante aproximada.
— Sem contar o que o senhor depositou hoje, é um pouco mais de trinta mil libras. É uma quantia muito alta para ficar simplesmente depositada, e eu acho que o senhor poderia lucrar bastante investindo-a.
— Não quero correr riscos, senhor, e prefiro tê-la garantida no banco.
— O senhor não precisa preocupar-se. Forneceremos para sua escolha uma lista de investimentos seguros, com lastro em ouro, que lhe trarão rendimento maior do que o banco pode oferecer.
— Nunca entendi de ações e títulos, e terei de deixar as aplicações para o senhor decidir.
— Não há problema. Tomaremos todas as providências necessárias. Basta o senhor assinar os papéis quando voltar ao banco.
— Está bem, mas como é que eu vou saber o que é que estarei assinando?
— Basta ler o texto dos próprios documentos.
— Acontece, senhor, que isso eu não posso fazer. Pode parecer estranho, mas não sei ler nem escrever, só sei assinar meu nome. E mesmo isso, só porque fui obrigado, quando entrei no ramo de negócios.
O gerente levou um susto tão grande, que saltou da cadeira.
— Isto é a coisa mais extraordinária que eu já ouvi!
— Mas é como eu lhe estou dizendo. Só tive a oportunidade de aprender quando já era bem idoso, e aí eu decidi não tentar. Uma espécie de obstinação.
O gerente olhava-o fixamente, como se fosse um monstro pré-histórico.
— Quer dizer que o senhor montou todo esse seu negócio e juntou uma fortuna de trinta mil libras sem saber ler nem escrever? Santo Deus! Imagino então o que o senhor teria conseguido, se soubesse.
Foreman deu uma gargalhada, e respondeu:
— Isso eu posso lhe dizer, direitinho: Seria sacristão na igreja de São Pedro.
(Somerset Maugham, Collected short stories – Penguin Books, Harmondsworth, 1971)
***
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O SÁBIO DA EFELOGIA - Malba Tahan
Durante a última excursão que fiz a Marrocos, encontrei um dos tipos mais curiosos que tenho visto em minha vida.
Conheci-o casualmente, no velho hotel de Yazid El-Kedim, em Marrakech. Era um homem alto, magro, de barbas pretas e olhos escuros; vestia sempre pesadíssimo casaco de astracã, com esquisita gola de peles que lhe chegava até às orelhas. Falava pouco; quando conversava casualmente com os outros hóspedes, não fazia a menor referência à sua vida ou ao seu passado. Deixava porém, de vez em quando, escapar observações eruditas, denotadoras de grande e extraordinário saber.
Além do nome — Vladimir Kolievich — pouco mais se conhecia dele. Entre os viajantes que se achavam em “El-Kedim”, constava que o misterioso cavalheiro era um antigo e notável professor da Universidade de Riga, que vivia foragido por ter tomado parte numa revolução contra o governo da Letônia.
Uma noite, como de costume estávamos reunidos na sala de jantar, quando uma jovem escritora russa, Sônia Baliakine, que se entretinha com a leitura de um romance, me perguntou:
— Sabe o senhor onde fica o rio Falgu?
— O quê? Rio Falgu?
Ao cabo de alguns momentos de baldada pesquisa nos escaninhos da memória, fui obrigado a confessar a minha ignorância, lamentável nesse ponto. Nunca tinha ouvido falar em semelhante rio, apesar de ter feito um curso completo e distinto na Universidade de Moscou.
Com surpresa de todos, o misterioso Vladimir Kolievich, que fumava em silêncio a um canto, veio esclarecer a dúvida da encantadora excursionista russa:
— O Rio Falgu fica nas proximidades da cidade de Gaya, na Índia. Para os budistas, o Falgu é um rio sagrado, pois foi junto a ele que Buda, fundador da grande religião, recebeu a inspiração de Deus.
Diante da admiração geral dos hóspedes, aquele cavalheiro, habitualmente taciturno e concentrado, continuou:
— É muito curioso o rio Falgu. O seu leito apresenta-se coberto de areia; parece eternamente seco, árido, como um deserto. O viajante que dele se aproxima não vê água nem ouve o menor rumor do líquido. Cavando-se, porém, alguns palmos na areia, encontra-se um lençol de água pura e límpida.
Com a simplicidade e clareza peculiares aos grandes sábios, passou a contar-nos coisas curiosas, não só da Índia, como de várias outras partes do mundo. Falou-nos minuciosamente das “filazenes”, espécie de cadeiras em que se assentam, quando viajam, os habitantes de Madagáscar.
— Que grande talento! Que invejável cultura científica! — segredou, a meu lado, um missionário católico, sinceramente admirado.
A formosa Sônia afirmou que encontrara referências ao rio Falgu exatamente no livro que estava lendo, uma obra de Otávio Feuillet.
— Ah! Feuillet, o célebre romancista francês! — atalhou ainda o erudito cavalheiro do astracã. — Otávio Feuillet nasceu em 1821 e morreu em 1890. As suas obras, de um romantismo um pouco exagerado, são notáveis pela finura das observações e pela concisão e brilho do estilo.
Durante algum tempo, prendeu a atenção de todos, discorrendo sobre Otávio Feuillet, sobre a França e sobre os escritores franceses. Ao referir-se aos romances realistas, citou as obras de Gustavo Flaubert: “Salambô”, “Madame Bovary”, “Educação Sentimental”...
— Não se limita a conhecer a Geografia — acrescentou, a meia-voz, o velho missionário. — Sabe também literatura a fundo!
Realmente. A precisão com que o erudito Vladimir citava datas e nomes, e a segurança com que expunha os diversos assuntos, não deixavam dúvida alguma sobre a extensão de seu considerável saber.
Nesse momento, começava uma forte ventania. As janelas e portas batem com violência. Alguns excursionistas que se achavam na sala mostraram-se assustados.
— Não tenham medo — acudiu, bondoso, o extraordinário Kolievich. — Não há motivo para temores ou receios. Faye, o grande astrônomo, que estudou a teoria dos ciclones...
Discorreu longamente sobre a obra de Faye, e depois passou a falar, com grande loquacidade, dos ciclones, avalanches, erupções e todos os flagelos da natureza.
Senti-me seriamente intrigado. Quem seria, afinal, aquele homem tão sábio, de rara e copiosa erudição, que se deixava ficar modesto, incógnito, como simples aventureiro, numa velha e monótona cidade marroquina?
No dia seguinte, ao regressar de fatigante excursão aos jardins de El-Menara, encontrei-o casualmente, sozinho, no pátio da linda mesquita de Kasb. Não me contive e fui ter com ele.
— O senhor maravilhou-nos ontem com o seu saber — confessei, respeitoso. — Não podíamos imaginar, com franqueza, que fosse um homem de tão grande cultura. Na sua academia, com certeza...
— Qual, meu amigo! — obtemperou ele, amável, batendo-me no ombro. — Não me considere um sábio, um acadêmico ou um professor. Eu pouco sei, ou melhor, nada sei. Não reparou nas palavras de que tratei? Falgu, filazenes, Feuillet, França, Flaubert, Faye, flagelo. Começam todas pela letra F. Eu só sei falar sobre palavras que começam pela letra F.
Fiquei ainda mais admirado. Qual seria a razão de tão curiosa extravagância no saber?
— Eu lhe explico — acudiu com bom humor o estranho viajante. — Sou natural de Petrogrado e vivo do comércio do fumo. Estive, porém, por motivos políticos, durante dez anos nas prisões da Sibéria. O condenado que me havia precedido, na cela em que me puseram, deixou-me como herança os restos de uma velha enciclopédia francesa. Eu conhecia um pouco esse idioma, e como não tivesse em que me ocupar, li e reli centenas de vezes as páginas que possuía. Eram todas da letra F. Ao final, fiquei sabendo muita coisa; tudo, porém sem sair da letra F: fá, fabagela, fabela, fabiana, fabordão.
Achei curiosa aquela conclusão da original história do inteligente Kolievich, o negociante de fumo. Ele era precisamente o contrário do famoso e venerado rio Falgu, da Índia. Parecia possuir uma corrente enorme, profunda e tumultuosa de saber; entretanto, sua erudição, que nos causara tanto assombro, não ia além dos vários capítulos decorados da letra F de uma velha enciclopédia.
Era, inquestionavelmente, o homem que mais conhecia a ciência que ele próprio denominara “efelogia”.
(Malba Tahan, Seleções - Os melhores contos – Conquista, Rio, 1963)
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Conheci-o casualmente, no velho hotel de Yazid El-Kedim, em Marrakech. Era um homem alto, magro, de barbas pretas e olhos escuros; vestia sempre pesadíssimo casaco de astracã, com esquisita gola de peles que lhe chegava até às orelhas. Falava pouco; quando conversava casualmente com os outros hóspedes, não fazia a menor referência à sua vida ou ao seu passado. Deixava porém, de vez em quando, escapar observações eruditas, denotadoras de grande e extraordinário saber.
Além do nome — Vladimir Kolievich — pouco mais se conhecia dele. Entre os viajantes que se achavam em “El-Kedim”, constava que o misterioso cavalheiro era um antigo e notável professor da Universidade de Riga, que vivia foragido por ter tomado parte numa revolução contra o governo da Letônia.
Uma noite, como de costume estávamos reunidos na sala de jantar, quando uma jovem escritora russa, Sônia Baliakine, que se entretinha com a leitura de um romance, me perguntou:
— Sabe o senhor onde fica o rio Falgu?
— O quê? Rio Falgu?
Ao cabo de alguns momentos de baldada pesquisa nos escaninhos da memória, fui obrigado a confessar a minha ignorância, lamentável nesse ponto. Nunca tinha ouvido falar em semelhante rio, apesar de ter feito um curso completo e distinto na Universidade de Moscou.
Com surpresa de todos, o misterioso Vladimir Kolievich, que fumava em silêncio a um canto, veio esclarecer a dúvida da encantadora excursionista russa:
— O Rio Falgu fica nas proximidades da cidade de Gaya, na Índia. Para os budistas, o Falgu é um rio sagrado, pois foi junto a ele que Buda, fundador da grande religião, recebeu a inspiração de Deus.
Diante da admiração geral dos hóspedes, aquele cavalheiro, habitualmente taciturno e concentrado, continuou:
— É muito curioso o rio Falgu. O seu leito apresenta-se coberto de areia; parece eternamente seco, árido, como um deserto. O viajante que dele se aproxima não vê água nem ouve o menor rumor do líquido. Cavando-se, porém, alguns palmos na areia, encontra-se um lençol de água pura e límpida.
Com a simplicidade e clareza peculiares aos grandes sábios, passou a contar-nos coisas curiosas, não só da Índia, como de várias outras partes do mundo. Falou-nos minuciosamente das “filazenes”, espécie de cadeiras em que se assentam, quando viajam, os habitantes de Madagáscar.
— Que grande talento! Que invejável cultura científica! — segredou, a meu lado, um missionário católico, sinceramente admirado.
A formosa Sônia afirmou que encontrara referências ao rio Falgu exatamente no livro que estava lendo, uma obra de Otávio Feuillet.
— Ah! Feuillet, o célebre romancista francês! — atalhou ainda o erudito cavalheiro do astracã. — Otávio Feuillet nasceu em 1821 e morreu em 1890. As suas obras, de um romantismo um pouco exagerado, são notáveis pela finura das observações e pela concisão e brilho do estilo.
Durante algum tempo, prendeu a atenção de todos, discorrendo sobre Otávio Feuillet, sobre a França e sobre os escritores franceses. Ao referir-se aos romances realistas, citou as obras de Gustavo Flaubert: “Salambô”, “Madame Bovary”, “Educação Sentimental”...
— Não se limita a conhecer a Geografia — acrescentou, a meia-voz, o velho missionário. — Sabe também literatura a fundo!
Realmente. A precisão com que o erudito Vladimir citava datas e nomes, e a segurança com que expunha os diversos assuntos, não deixavam dúvida alguma sobre a extensão de seu considerável saber.
Nesse momento, começava uma forte ventania. As janelas e portas batem com violência. Alguns excursionistas que se achavam na sala mostraram-se assustados.
— Não tenham medo — acudiu, bondoso, o extraordinário Kolievich. — Não há motivo para temores ou receios. Faye, o grande astrônomo, que estudou a teoria dos ciclones...
Discorreu longamente sobre a obra de Faye, e depois passou a falar, com grande loquacidade, dos ciclones, avalanches, erupções e todos os flagelos da natureza.
Senti-me seriamente intrigado. Quem seria, afinal, aquele homem tão sábio, de rara e copiosa erudição, que se deixava ficar modesto, incógnito, como simples aventureiro, numa velha e monótona cidade marroquina?
No dia seguinte, ao regressar de fatigante excursão aos jardins de El-Menara, encontrei-o casualmente, sozinho, no pátio da linda mesquita de Kasb. Não me contive e fui ter com ele.
— O senhor maravilhou-nos ontem com o seu saber — confessei, respeitoso. — Não podíamos imaginar, com franqueza, que fosse um homem de tão grande cultura. Na sua academia, com certeza...
— Qual, meu amigo! — obtemperou ele, amável, batendo-me no ombro. — Não me considere um sábio, um acadêmico ou um professor. Eu pouco sei, ou melhor, nada sei. Não reparou nas palavras de que tratei? Falgu, filazenes, Feuillet, França, Flaubert, Faye, flagelo. Começam todas pela letra F. Eu só sei falar sobre palavras que começam pela letra F.
Fiquei ainda mais admirado. Qual seria a razão de tão curiosa extravagância no saber?
— Eu lhe explico — acudiu com bom humor o estranho viajante. — Sou natural de Petrogrado e vivo do comércio do fumo. Estive, porém, por motivos políticos, durante dez anos nas prisões da Sibéria. O condenado que me havia precedido, na cela em que me puseram, deixou-me como herança os restos de uma velha enciclopédia francesa. Eu conhecia um pouco esse idioma, e como não tivesse em que me ocupar, li e reli centenas de vezes as páginas que possuía. Eram todas da letra F. Ao final, fiquei sabendo muita coisa; tudo, porém sem sair da letra F: fá, fabagela, fabela, fabiana, fabordão.
Achei curiosa aquela conclusão da original história do inteligente Kolievich, o negociante de fumo. Ele era precisamente o contrário do famoso e venerado rio Falgu, da Índia. Parecia possuir uma corrente enorme, profunda e tumultuosa de saber; entretanto, sua erudição, que nos causara tanto assombro, não ia além dos vários capítulos decorados da letra F de uma velha enciclopédia.
Era, inquestionavelmente, o homem que mais conhecia a ciência que ele próprio denominara “efelogia”.
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domingo
O REALEJO - Boleslaw Prus
Na Rua Miodowa, por volta do meio‑dia, via‑se diariamente um senhor de certa idade, a caminhar da Praça dos Krasinski em direção à Rua Senatorska. Durante o verão, usava elegante capote azul‑marinho‑escuro e cartola já um tanto surrada. Tinha o rosto rosado, suíças grisalhas e olhos claros, bondosos. Andava meio inclinado, com as mãos nos bolsos. Se o tempo era bom, sobraçava uma bengala; nos dias nublados, carregava um guarda‑chuva inglês de seda.
Caminhava devagar, abismado em profundas meditações. Diante da igreja dos Capuchinhos, tocava piedosamente na cartola e atravessava a rua para observar na vitrina da Pik a elevação do barômetro e do termômetro; depois, voltava à calçada direita, parava em frente da vitrina da Mieczkowsky, contemplava as fotografias de Modrzejewska e retomava o passeio, cedendo o lugar a cada transeunte; e se alguém o empurrava, sorria com benevolência. Cruzando alguma jovem bonita, punha os óculos para vê‑la melhor. Mas, como executasse a operação bem devagar, quase nunca lograva êxito.
Este cavalheiro era o Sr. Tomás. Havia trinta anos que percorria a Rua Miodowa, e por vezes pensava que muita coisa nela tinha mudado. A rua poderia pensar o mesmo a respeito dele. Quando ainda advogado num tribunal de paz, corria tão depressa que nenhuma costureirinha, de volta da loja para casa, conseguiria escapar‑lhe. O Sr. Tomás era então alegre, loquaz, esbelto, tinha cabeleira, e bigode retorcido.
Já naquela época o impressionavam as belas‑artes, porém não lhes consagrava o seu tempo, porque era louco pelas mulheres. Freqüentemente fora bem‑sucedido com elas e tivera boas oportunidades de casar; mas a isso ligava pouca importância, e nunca se lhe oferecia ocasião para declarar‑se, ocupado que estava com a profissão ou com os encontros amorosos. Depois de haver visitado a Chiquita, dirigia‑se ao tribunal, de onde corria à casa da Sofia, a quem deixava tarde para jantar com a Josefina e a Filka.
Ao ser nomeado advogado junto a um tribunal mais alto, já tinha a testa crescida até o topo da cabeça, em conseqüência do árduo trabalho mental, e apontavam‑lhe no bigode uns fios brancos. Perdera o ardor juvenil, possuía razoável fortuna e passava por um conhecedor das belas‑artes. E, como continuasse a amar as moças, começou a pensar em casar‑se. Alugou um apartamento de seis quartos, mandou pavimentá‑lo, cobriu as paredes de papéis pintados, comprou lindos móveis e foi à procura de uma esposa.
Porém não era fácil a escolha para um homem maduro. Uma era jovem demais; a outra, ele a namorava desde muitíssimo tempo; a terceira tinha aparência e idade adequadas, mas gênio impróprio; a quarta, de aparência, idade e gênio apropriados, não aguardou a declaração do advogado e casou com um médico.
Não se afligia muito o Sr. Tomás: mulheres não faltavam. Entretanto completava o arranjo do aposento, cuidando cada vez mais de que as menores peças tivessem valor artístico. Mudava os móveis, deslocava os espelhos, comprava quadros.
Com o correr do tempo, o apartamento se tornara famoso. O Sr. Tomás, não se sabia quando, transformara a casa numa verdadeira galeria. O número de amigos e curiosos que iam visitá‑la aumentava sempre, tanto mais que o dono era muito hospitaleiro, dava recepções excelentes e mantinha relações com alguns músicos. Aos poucos, iam‑se organizando em sua residência vesperais de concertos, honradas também com a presença de senhoras. O Sr. Tomás recebia a todos com muita fidalguia.
Verificando, nos espelhos, que a testa já lhe ultrapassara o topo da cabeça e se aproximava, por trás, do colarinho impecavelmente branco, lembrava‑se de que, fosse como fosse, era tempo de tomar estado; tanto mais quanto os seus sentimentos em relação ao belo sexo se mantinham calorosos.
Certa vez, ao receber uma companhia mais numerosa que de costume, uma das moças, contemplando os salões, exclamou:
— Que quadros! E este parquete, que beleza! A esposa do senhor será muito feliz!
— Será, se o belo parquete lhe bastar para a felicidade — observou baixinho um bom amigo do advogado.
O ambiente do salão fez‑se muito alegre. O Sr. Tomás sorriu também, mas desde aquele dia, se alguém lhe falava em casamento, ele se limitava a um gesto de desdém, dizendo apenas:
— Ih, ih, ih!
Nessa época, rapou o bigode e deixou crescer as suíças. A respeito das mulheres, continuava a exprimir‑se muito respeitosamente, desculpando‑lhes os defeitos com larga indulgência.
Nada mais esperando da sociedade, pois já tinha abandonado a profissão, o advogado concentrou nas artes os seus tranqüilos afetos. Um lindo quadro, um bom concerto, uma pré‑estréia, eram acontecimentos marcantes na sua vida. Não se extasiava, não se agitava: saboreava.
Nos concertos, escolhia sempre um lugar longe da platéia, para ouvir a música sem perceber nenhum outro ruído e sem ver os artistas. Antes de ir ao teatro, lia a peça, a fim de poder observar sem curiosidade febril o desempenho dos atores. Quando não havia muita gente na galeria, admirava os quadros. Passava ali horas inteiras.
Se gostava de uma coisa, dizia:
— Vocês sabem, isto não está mau!
Era um desses poucos entendidos que logo reconhecem um talento. Mas nem por isso condenava as obras medíocres.
— Aguardem um pouco — dizia, ao ouvir criticarem um artista. — Talvez ele melhore.
E assim continuava, sempre indulgente com as imperfeições humanas, sem jamais comentar as falhas.
Felizmente nenhum dos mortais é de todo livre de extravagâncias. Não o era o Sr. Tomás. Odiava ele os realejos e os homens que os tocam.
Ao sentir na rua os sons de um realejo, acelerava o passo e perdia o bom humor por algumas horas. Apesar de tão calmo, agitava‑se; de tão silencioso, gritava; de tão brando, encolerizava‑se, ouvindo o primeiro toque de um realejo.
Longe de esconder esta fraqueza, explicava‑a:
— A música — dizia, fora de si — é a coisa mais sutil, mais espiritual que existe; no realejo, todo esse espírito se transforma em execução mecânica num instrumento de banditismo; pois que são os tocadores de realejo, senão uns bandidos? Por isso — acrescentava — os realejos irritam‑me; e como só tenho uma vida, não quero desperdiçá‑la escutando essa música detestável.
Uma pessoa malévola, conhecendo‑lhe a aversão às caixas de música, lembrou‑se de lhe pregar uma peça: mandou dois realejistas tocarem sob suas janelas. O Sr. Tomás adoeceu de indignação, e depois, tendo descoberto o autor, provocou‑o a duelo. Foi preciso convocar‑se um tribunal de honra, para evitar derramamento de sangue por motivo aparentemente tão frívolo.
O edifício onde morava o Sr. Tomás mudou algumas vezes de proprietário. E cada um deles, naturalmente, considerava de seu dever aumentar o aluguel de todos os inquilinos, principalmente do Sr. Tomás. O advogado pagava sem protesto os aumentos, mas, de cada vez, estipulava no contrato, com todos os efes‑e‑erres, que não poderiam tocar realejo no quintal do edifício.
Independentemente das restrições contratuais, sempre que chegava novo vigia o Sr. Tomás o chamava ao seu apartamento e tinha com ele mais ou menos esta conversa:
— Escute, amigo... Seu nome?
— Casimiro, senhor.
— Escute, Casimiro: cada vez que eu voltar para casa tarde e você me abrir a porta, terá vinte groszy. Entendeu?
— Entendi, Excelência.
— Além disso, você terá de mim, no fim de cada mês, dez zlotych. Sabe para quê?
— Não posso saber, Excelência — respondia o vigia, todo alvoroçado.
— Para que você nunca deixe entrar ninguém com realejo no quintal. Entendeu?
— Entendi, Excelência.
O apartamento do Sr. Tomás compunha‑se de duas partes. Quatro grandes cômodos tinham janelas para a rua; dois menores, para o quintal. A parte mais elegante do apartamento destinava‑se aos convidados. Aí se realizavam os banquetes, aí eram recebidos os clientes, aí se hospedavam parentes e conhecidos do advogado, vindos da roça. Raramente o Sr. Tomás aparecia nessa parte — apenas para ver se o parquete estava bem encerado, se os móveis não se estragavam e se lhes tinham tirado a poeira.
Quando ficava em casa, levava dias inteiros no gabinete, do lado do quintal; lia, escrevia cartas ou examinava documentos dos conhecidos que lhe pediam conselho. Se queria descansar a vista, sentava‑se numa poltrona ao pé de uma das janelas e, acendendo um charuto, abismava‑se em meditações. Sabia que o pensamento constituía função muito importante da vida, função que um homem cuidoso da saúde não devia desprezar.
Do outro lado do quintal, em frente das janelas do Sr. Tomás, havia um apartamento alugado a pessoas de menores recursos. Muito tempo morou ali um velho funcionário do tribunal, que, tendo perdido o seu posto, se mudou para Praga. Depois, um alfaiate alugou o pequeno apartamento; mas, como gostava de embriagar‑se de vez em quando, e então fazia barulho, foi despejado. Veio em seguida a viúva de um funcionário, a qual passava o tempo a brigar com a empregada. Mas no dia de S. João uns parentes da província vieram buscar a velha, já muito decrépita (aliás, relativamente rica), e levaram‑na consigo, apesar do seu gênio altercador. O apartamento foi ocupado por duas senhoras e uma menina de uns oito anos.
As senhoras viviam do seu trabalho: uma cosia, a outra fazia meias e coletes numa máquina de tricotar. A menina chamava mãe à mais jovem e bonita das mulheres, e tratava a outra por "senhora".
Tanto as janelas do Sr. Tomás como as das novas moradoras ficavam abertas o dia inteiro. Assim, sentado na sua poltrona, podia o advogado ver perfeitamente o que se passava no apartamento das vizinhas, cujos móveis eram modestos para aquele local. Nas mesas e nas cadeiras, no sofá e na camiseira viam‑se panos para costurar e novelos de algodão para meias.
De manhã as moças varriam, elas mesmas, o apartamento; ao meio‑dia, mais ou menos, uma criada lhes trazia o almoço parco.
Durante o resto do dia, as duas mulheres quase não deixavam as sussurrantes máquinas.
A criança ficava, em geral, sentada à janela. Tinha cabelos pretos e um lindo rostinho, mas era singularmente pálida e de uma calma excessiva. Às vezes, com duas agulhas de tricô, fazia uma cinta com um pouco de linho ou de algodão. Outras vezes, brincava com uma boneca, vestindo‑a e despindo‑a repetidamente, a custo. Em outras ocasiões, não fazia nada; permanecia sentada à janela, à escuta.
Nunca o Sr. Tomás a ouviu cantar nem a viu correr pelo quarto, nem lhe enxergou nunca um sorriso nos lábios exangues e no rosto impassível.
— "Que menina esquisita!" — dizia consigo.
E entrou a observá‑la mais atentamente.
Certo dia — um domingo — notou que a mãe dera à criança um pequeno ramozinho de flores. A menina animou‑se, separou e juntou as flores, beijou‑as. Finalmente fez delas outro ramo e o pôs num copo de água, sentou‑se à janela a disse:
— Mamãe, está muito triste aqui, não é?
O advogado espantou‑se. Como? Triste aquela casa onde ele vivera de bom humor tantos anos?
Outro dia, por volta das quatro horas, o advogado encontrava‑se de novo no seu gabinete. A essa hora o Sol batia na janela das vizinhas, aclarando‑a e aquecendo‑a bastante. O Sr. Tomás olhava para o outro lado do quintal. De repente botou os óculos, como se houvesse algo extraordinário. Eis o que era: A pálida menina, apoiando a cabeça no braço, quase se deitara de costas para a janela, e com os olhos escancarados fitava o Sol. No seu rosto, de ordinário tão impassível, refletiam‑se agora alguns sentimentos, um pouco de alegria, um pouco de tristeza.
— "Ela não vê" — disse consigo o Sr. Tomás, baixando os óculos.
E só de pensar como se podia fitar assim o Sol, que parecia lançar fogo, sentia doerem‑lhe os olhos.
De fato, a menina era cega havia dois anos. Aos seis, adoecera de estranha moléstia, que a deixou desacordada algumas semanas, e depois a tornou tão débil que ela ficava estendida na cama, sem se mover, sem falar, como se estivesse morta. Davam‑lhe vinho e canja, a assim se refazia aos poucos. Mas no primeiro dia em que se pôde sentar na cama, perguntou à mãe:
— Mamãe, agora é noite?
— Não, minha filha... Por que é que você pergunta?
A criança não respondeu; tinha sono. Só no dia seguinte, ao chegar o médico, perguntou de novo:
— Ainda é noite?
Então compreenderam que estava cega. O médico examinou-lhe os olhos e disse que era preciso aguardar.
Mas a doente, à medida que recuperava as forças, preocupava-se cada vez mais com aquela enfermidade:
— Mamãe, por que não posso ver a senhora?
— Porque você tem os olhos tapados. Mas isso há de passar.
— Quando?
— Daqui a algum tempo.
— Amanhã, talvez?
— Dentro de alguns dias, minha filha.
— Então, quando isto passar, mamãe, me avise imediatamente, porque, assim como estou, fico muito triste, por não ver nada.
Dias e semanas decorreram em expectativa. A menina principiou a levantar‑se. Aprendeu a andar no quarto às cegas, vestia‑se e despia‑se sozinha, mas com vagar e cautela. A vista, porém, não voltava.
Um dia, ela disse:
— Mamãe, o meu vestido é azul, não é?
— Não, minha filha, é cinzento.
— Você o vê?
— Vejo‑o, sim, querida.
— Como se fosse dia?
— Sim.
— E eu, eu também voltarei a ver tudo daqui a poucos dias? Dentro de um mês, por exemplo?
Como não obtivesse resposta, continuou:
— Mamãe, na rua é sempre dia, não é? O jardim tem árvores, como dantes? E aquele gatinho branco de patas pretas vem sempre visitar a gente? Não é verdade, mamãe, que eu já me tenho visto num espelho? Você não tem um?
A mãe deu‑lhe um espelho.
— A gente deve olhar aqui, onde o espelho é liso — disse a pequena, aproximando‑o do rosto —, mas não vejo nada. Mamãe, você também não me vê no espelho?
— Vejo‑a, meu bem.
— Como pode ser? — exclamou a menina, aflita. — Se eu não me posso ver, não deveria haver ninguém no espelho... E essa menina que você vê no espelho, ela me vê ou não?
A mãe saiu às pressas, chorando.
O passatempo preferido da menina era tocar diferentes objetos pequenos com as mãos e reconhecê‑los.
Um dia a mãe deu‑lhe uma boneca de porcelana, bem‑vestida, que custara um rublo. A criança não largava a boneca, fazia‑lhe carinhos. Deitou‑se muito tarde, pensando sempre no brinquedo, que guardou numa caixa estofada de algodão.
À noite a mãe foi despertada por um ruído; saltou da cama, acendeu uma vela e viu num canto a sua filha, já vestida, a brincar com a boneca.
— Que é que está fazendo? — exclamou. — Por que não dorme?
— Para que dormir, se já é dia? — respondeu a ceguinha.
Para ela, dia e noite fundiam‑se, e duravam sempre...
Obliterava‑se‑lhe gradualmente a memória das sensações visuais. Uma cereja vermelha tornava‑se uma frutinha lisa, redonda e macia; uma moeda reluzente fazia‑se um pequeno disco duro e tininte, com figurinhas em baixo‑relevo. Ela sabia que o quarto era maior do que ela mesma, a casa maior do que o quarto, a rua maior do que a casa. Mas tudo isto se foi de certa maneira resumindo, na sua imaginação.
Concentrava‑se‑lhe a atenção no tato, no olfato a no ouvido. O rosto a as mãos adquiriram sensibilidade tal que, ao aproximar‑se algumas polegadas de uma parede, sentia um leve frio. Acontecimentos mais afastados penetravam nela pelo ouvido; ficava escutando dias inteiros.
Reconhecia os passos vagarosos do vigia de voz aguda que varria o quintal. Distinguia se o veículo que passava diante da casa era um carro de camponês carregando madeira, um fiacre ou um caminhão de lixo. Não lhe escapava o menor ruído, o cheiro mais leve, um resfriamento ou um aquecimento imperceptível do ar. Com incrível sagacidade, percebia os menores fatos e deles tirava conclusões.
Um dia, ouvindo a mãe chamar a empregada:
— Ela saiu — disse a cega, sentada, como sempre, no seu canto. — Foi buscar água.
— Como é que você sabe? — perguntou a mãe, assombrada.
— Como? Sei que apanhou o regador na cozinha e foi ao outro quintal tirar água com a bomba. Agora está conversando com o vigia.
Com efeito, do outro lado da cerca vinha o som da conversa de duas pessoas, mas tão abafado que dificilmente se podia entender.
Por maior que fosse o aperfeiçoamento dos outros sentidos, não substituía a vista, e a menina começou a ressentir‑se da escassez de impressões e a experimentar saudades.
Permitiam‑lhe andar por toda a casa, o que a serenava um pouco. Conhecia cada pedra do quintal, tocava em todos os algerozes, em todos os barris. Mas o maior prazer advinha‑lhe de excursões a dois mundos inteiramente diversos: o celeiro e a adega.
Na adega o ar era fresco, as paredes úmidas. O bulício da rua chegava de cima, amortecido; os outros sons desapareciam. Para a cega, isso era a noite. No celeiro, sobretudo perto da janelinha, tudo se passava de maneira completamente diversa. Havia mais barulho que no quarto. A menina percebia o ruído dos carros de algumas ruas. De mais a mais, lá se concentravam os rumores da casa inteira. Um vento quente lhe afagava o rosto. Ouvia o gorjeio das aves, o latido dos cães e o sussurro das árvores num jardim vizinho. Era o dia.
Não só isto: no celeiro o Sol brilhava com maior freqüência que no quarto, e, ao volver para o Sol os seus olhos extintos, a pequena tinha a impressão de ver alguma coisa. Na sua imaginação apontavam sombras de formas e cores, mas tão confusas e fugidias que não podia lembrar‑se de nada.
Foi nesse tempo que a mãe, tendo‑se reunido à amiga, se mudou para a casa onde residia o Sr. Tomás. Estavam ambas as senhoras muito contentes da nova morada, mas para a ceguinha a mudança foi um verdadeiro desastre. Era obrigada a ficar no quarto, não lhe sendo permitido ir à adega nem ao celeiro. Não ouvia aves nem árvores. Reinava no quintal um silêncio horrível. Lá nunca entravam belchiores para quebrá‑lo. Era proibida a entrada de velhas mendigas que entoavam cânticos religiosos, assim como de velhos tocadores de clarineta ou de realejo.
A única distração da menina era olhar para o Sol; mas nem sempre este luzia da mesma forma, e não tardava a esconder‑se atrás das casas.
A criança principiou novamente a sentir saudades, emagreceu em poucos dias, e apareceu‑lhe no rosto aquela expressão de desalento e desânimo que tanto espantou o Sr. Tomás.
Não podendo ver, a ceguinha queria ao menos ouvir os rumores mais diferentes; mas a casa era toda silenciosa...
— "Coitada da pequena!" — resmungava por vezes o Sr. Tomás, observando a triste menina. — "E se eu pudesse fazer alguma coisa por ela?" — perguntava, vendo‑a cada vez mais pálida a magra.
Por esse tempo, um amigo do advogado teve um processo e, como de praxe, trouxe‑lhe os autos, pedindo que os examinasse e desse alguns conselhos. Embora já não pleiteasse no tribunal, o Sr. Tomás, como bom profissional que era, sabia sempre indicar o caminho adequado e fornecia ao colega, por ele mesmo escolhido, muitas explicações úteis.
A causa que o Sr. Tomás agora estava examinando era complicada. Quanto mais atentamente a estudava, tanto mais se enchia de paixão. No ancião aposentado acordava o causídico. Já não saía do apartamento, já não verificava se fora tirada a poeira dos móveis. Encerrado no seu gabinete, lia os documentos e tomava notas.
À noite chegou, como de costume, o velho lacaio do advogado, com um relatório dos acontecimentos do dia. Informou que a esposa do doutor partira com os filhos em férias; que não estava sendo feito o fornecimento da água; que o vigia Casimiro, tendo brigado com um policial, fora preso por uma semana. Por fim, perguntou se o senhor advogado não queria falar com o novo vigia. O amo, inclinado sobre os papéis, fumava o seu charuto, lançava anéis de fumaça, e nem volveu os olhos para o fiel criado.
No dia seguinte o Sr. Tomás ainda estudava os autos. Por volta das duas almoçou, e depois tornou ao trabalho. O rosto vermelho e as suíças grisalhas, em combinação com o fundo azul da parede, assemelhavam‑se a uma natureza‑morta. A mãe da menina cega e a sua companheira, que fazia meias à máquina, observavam o advogado, a quem julgavam um viúvo robusto que habitualmente dormia da manhã até à noite, sentado à mesa do trabalho.
No entanto, o Sr. Tomás, bem que estivesse de olhos fechados, não dormia. Meditava sobre o caso.
Em 1872 o cidadão X legou ao sobrinho A uma fazenda, e em 1875, ao sobrinho B, um edifício. B pretendia que em 1872 X era louco, ao passo que A queria provar que ele só enlouquecera em 1875. Porém o marido da irmã do falecido Sr. X apresentou documentos autênticos que provavam que, tanto em 1872 como em 1875, X agia como um doido, pois havia legado a fortuna à irmã já em 1869, tempo em que ainda se achava de posse de todas as suas faculdades.
O Sr. Tomás fora convidado a resolver quando X enlouquecera, e depois a reconciliar as três partes, nenhuma das quais estava disposta a fazer a menor concessão.
Enquanto o Sr. Tomás procurava dirimir todas essas complicações, aconteceu um incidente incompreensível e estranho: No quintal, justamente sob a sua janela, um realejo pôs‑se a berrar.
Se o falecido Sr. X se tivesse levantado do túmulo, houvesse recuperado os sentidos e entrado no gabinete para ajudar o advogado a encontrar a solução, decerto o Sr. Tomás não teria sentido espanto igual ao que experimentou ouvindo o realejo.
E se pelo menos fosse um realejo italiano, de acordes agradáveis como os de uma flauta, de boa fabricação, tocando belas melodias! Mas não! Como para irritá‑lo de modo especial, o instrumento estava quebrado, tocava desafinadamente valsas a polcas ordinárias, a tão alto que as vidraças tremiam. Para cúmulo de desgraça, a tuba do realejo bramia de vez em quando, que nem uma fera raivosa.
Sob a tremenda impressão, o advogado ficou atônito. Não sabia que fazer nem que pensar. Por um instante cismou até que, lendo o testamento do louco Sr. X, ele mesmo houvesse perdido a razão e estivesse sujeito a alucinações. Mas qual! não eram alucinações. Era um verdadeiro realejo de pífanos quebrados e de tubo extra-forte.
No coração do Sr. Tomás, homem tão indulgente, tão afável, levantaram‑se instintos selvagens. Lamentava que a natureza não o tivesse feito rei de Daomei, com o direito de matar os seus súditos, e imaginava o prazer com que, naquele momento, tiraria a vida ao tocador.
Como os homens do gênio do Sr. Tomás, quando violentamente encolerizados, passam com facilidade de projetos audaciosos a realizações terríveis, o advogado saltou à janela como um tigre, decidido a ralhar contra o homem do realejo com palavras as mais ásperas. Já se debruçara no peitoril para gritar "seu vagabundo!", quando ouviu uma voz infantil. Olhou para o apartamento fronteiro.
A menina cega dançava no quarto, batendo palmas. O rostinho pálido estava corado, a boca ria, e, contudo, corriam lágrimas dos olhos extintos. Havia muito tempo a coitadinha não conhecia tamanhas impressões naquela casa tranqüila! Que bela aparição constituíam para ela os acordes falhos do realejo! Que soberbo o rugido da tuba, que por um triz não causou uma apoplexia ao advogado!
Vendo o júbilo da criança, pôs‑se o tocador a marcar o ritmo com o grande salto do sapato e a assobiar feito uma locomotiva ao cruzar‑se com outra.
— Meu Deus! Que beleza, este assobio!
No gabinete do advogado surgiu o seu criado fiel, fora de si, empurrando para a frente o vigia, a exclamar:
— Eu disse a este patife, Excelência, que pusesse logo no olho da rua esse tocador. Expliquei‑lhe que ia receber uma gratificação de V. Exa., e que nós tínhamos um contrato. Mas o malandro chegou da roça há uma semana, e não conhece os nossos costumes. Agora você vai ouvir — gritou, aferrando o braço do vigia. — Escute o que S. Exa. em pessoa lhe vai dizer.
O realejo tocava já a terceira melodia, sempre no mesmo tom desafinado e barulhento das duas primeiras. A menina estava em delírio.
O advogado voltou‑se para o vigia, com a sua calma habitual, embora estivesse um pouco pálido:
— Escute, amigo... Como se chama você?
— Paulo, Excelência.
— Então, Paulo, eu lhe pagarei dez zlotych por mês, mas sabe para quê?
— Para que eu nunca deixe tocarem realejo no quintal — interveio o criado.
— Não — disse o Sr. Tomás. — Para que, por algum tempo, você deixe todos os dias tocarem realejo no quintal. Entendeu?
— Que é que o senhor está dizendo? — exclamou o criado, a quem a ordem incompreensível tornara muito atrevido.
— Digo que ele deve, até ordem em contrário, deixar diariamente tocarem realejo no quintal — repetiu o advogado, pondo as mãos nos bolsos.
— Não estou compreendendo o senhor — disse o criado, com sinais insolentes de surpresa.
— Você é bobo, meu velho amigo — replicou‑lhe bondosamente o Sr. Tomás.
E acrescentou:
— Está bem, voltem ao serviço.
O criado e o vigia saíram. O advogado notou que o seu fiel criado murmurou alguma coisa ao ouvido do companheiro, pondo um dedo na testa.
O Sr. Tomás sorriu‑se e, como para confirmar as sinistras suposições do criado, lançou uma moeda ao tocador do realejo.
Depois, tomando de um calendário, procurou a lista dos médicos e anotou numa folha os endereços de alguns oftalmologistas. Como o tocador, animado pela moeda, se virou agora para a sua janela e entrou a bater com os pés e assobiar ainda com mais força, o que não deixou de irritá‑lo, agarrou a folha e saiu resmungando:
— Coitada da menina! Eu devia ter tomado conta dela há muito tempo...
(Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai — Mar de histórias — Nova Fronteira, Rio, vol.7)
***
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Caminhava devagar, abismado em profundas meditações. Diante da igreja dos Capuchinhos, tocava piedosamente na cartola e atravessava a rua para observar na vitrina da Pik a elevação do barômetro e do termômetro; depois, voltava à calçada direita, parava em frente da vitrina da Mieczkowsky, contemplava as fotografias de Modrzejewska e retomava o passeio, cedendo o lugar a cada transeunte; e se alguém o empurrava, sorria com benevolência. Cruzando alguma jovem bonita, punha os óculos para vê‑la melhor. Mas, como executasse a operação bem devagar, quase nunca lograva êxito.
Este cavalheiro era o Sr. Tomás. Havia trinta anos que percorria a Rua Miodowa, e por vezes pensava que muita coisa nela tinha mudado. A rua poderia pensar o mesmo a respeito dele. Quando ainda advogado num tribunal de paz, corria tão depressa que nenhuma costureirinha, de volta da loja para casa, conseguiria escapar‑lhe. O Sr. Tomás era então alegre, loquaz, esbelto, tinha cabeleira, e bigode retorcido.
Já naquela época o impressionavam as belas‑artes, porém não lhes consagrava o seu tempo, porque era louco pelas mulheres. Freqüentemente fora bem‑sucedido com elas e tivera boas oportunidades de casar; mas a isso ligava pouca importância, e nunca se lhe oferecia ocasião para declarar‑se, ocupado que estava com a profissão ou com os encontros amorosos. Depois de haver visitado a Chiquita, dirigia‑se ao tribunal, de onde corria à casa da Sofia, a quem deixava tarde para jantar com a Josefina e a Filka.
Ao ser nomeado advogado junto a um tribunal mais alto, já tinha a testa crescida até o topo da cabeça, em conseqüência do árduo trabalho mental, e apontavam‑lhe no bigode uns fios brancos. Perdera o ardor juvenil, possuía razoável fortuna e passava por um conhecedor das belas‑artes. E, como continuasse a amar as moças, começou a pensar em casar‑se. Alugou um apartamento de seis quartos, mandou pavimentá‑lo, cobriu as paredes de papéis pintados, comprou lindos móveis e foi à procura de uma esposa.
Porém não era fácil a escolha para um homem maduro. Uma era jovem demais; a outra, ele a namorava desde muitíssimo tempo; a terceira tinha aparência e idade adequadas, mas gênio impróprio; a quarta, de aparência, idade e gênio apropriados, não aguardou a declaração do advogado e casou com um médico.
Não se afligia muito o Sr. Tomás: mulheres não faltavam. Entretanto completava o arranjo do aposento, cuidando cada vez mais de que as menores peças tivessem valor artístico. Mudava os móveis, deslocava os espelhos, comprava quadros.
Com o correr do tempo, o apartamento se tornara famoso. O Sr. Tomás, não se sabia quando, transformara a casa numa verdadeira galeria. O número de amigos e curiosos que iam visitá‑la aumentava sempre, tanto mais que o dono era muito hospitaleiro, dava recepções excelentes e mantinha relações com alguns músicos. Aos poucos, iam‑se organizando em sua residência vesperais de concertos, honradas também com a presença de senhoras. O Sr. Tomás recebia a todos com muita fidalguia.
Verificando, nos espelhos, que a testa já lhe ultrapassara o topo da cabeça e se aproximava, por trás, do colarinho impecavelmente branco, lembrava‑se de que, fosse como fosse, era tempo de tomar estado; tanto mais quanto os seus sentimentos em relação ao belo sexo se mantinham calorosos.
Certa vez, ao receber uma companhia mais numerosa que de costume, uma das moças, contemplando os salões, exclamou:
— Que quadros! E este parquete, que beleza! A esposa do senhor será muito feliz!
— Será, se o belo parquete lhe bastar para a felicidade — observou baixinho um bom amigo do advogado.
O ambiente do salão fez‑se muito alegre. O Sr. Tomás sorriu também, mas desde aquele dia, se alguém lhe falava em casamento, ele se limitava a um gesto de desdém, dizendo apenas:
— Ih, ih, ih!
Nessa época, rapou o bigode e deixou crescer as suíças. A respeito das mulheres, continuava a exprimir‑se muito respeitosamente, desculpando‑lhes os defeitos com larga indulgência.
Nada mais esperando da sociedade, pois já tinha abandonado a profissão, o advogado concentrou nas artes os seus tranqüilos afetos. Um lindo quadro, um bom concerto, uma pré‑estréia, eram acontecimentos marcantes na sua vida. Não se extasiava, não se agitava: saboreava.
Nos concertos, escolhia sempre um lugar longe da platéia, para ouvir a música sem perceber nenhum outro ruído e sem ver os artistas. Antes de ir ao teatro, lia a peça, a fim de poder observar sem curiosidade febril o desempenho dos atores. Quando não havia muita gente na galeria, admirava os quadros. Passava ali horas inteiras.
Se gostava de uma coisa, dizia:
— Vocês sabem, isto não está mau!
Era um desses poucos entendidos que logo reconhecem um talento. Mas nem por isso condenava as obras medíocres.
— Aguardem um pouco — dizia, ao ouvir criticarem um artista. — Talvez ele melhore.
E assim continuava, sempre indulgente com as imperfeições humanas, sem jamais comentar as falhas.
Felizmente nenhum dos mortais é de todo livre de extravagâncias. Não o era o Sr. Tomás. Odiava ele os realejos e os homens que os tocam.
Ao sentir na rua os sons de um realejo, acelerava o passo e perdia o bom humor por algumas horas. Apesar de tão calmo, agitava‑se; de tão silencioso, gritava; de tão brando, encolerizava‑se, ouvindo o primeiro toque de um realejo.
Longe de esconder esta fraqueza, explicava‑a:
— A música — dizia, fora de si — é a coisa mais sutil, mais espiritual que existe; no realejo, todo esse espírito se transforma em execução mecânica num instrumento de banditismo; pois que são os tocadores de realejo, senão uns bandidos? Por isso — acrescentava — os realejos irritam‑me; e como só tenho uma vida, não quero desperdiçá‑la escutando essa música detestável.
Uma pessoa malévola, conhecendo‑lhe a aversão às caixas de música, lembrou‑se de lhe pregar uma peça: mandou dois realejistas tocarem sob suas janelas. O Sr. Tomás adoeceu de indignação, e depois, tendo descoberto o autor, provocou‑o a duelo. Foi preciso convocar‑se um tribunal de honra, para evitar derramamento de sangue por motivo aparentemente tão frívolo.
O edifício onde morava o Sr. Tomás mudou algumas vezes de proprietário. E cada um deles, naturalmente, considerava de seu dever aumentar o aluguel de todos os inquilinos, principalmente do Sr. Tomás. O advogado pagava sem protesto os aumentos, mas, de cada vez, estipulava no contrato, com todos os efes‑e‑erres, que não poderiam tocar realejo no quintal do edifício.
Independentemente das restrições contratuais, sempre que chegava novo vigia o Sr. Tomás o chamava ao seu apartamento e tinha com ele mais ou menos esta conversa:
— Escute, amigo... Seu nome?
— Casimiro, senhor.
— Escute, Casimiro: cada vez que eu voltar para casa tarde e você me abrir a porta, terá vinte groszy. Entendeu?
— Entendi, Excelência.
— Além disso, você terá de mim, no fim de cada mês, dez zlotych. Sabe para quê?
— Não posso saber, Excelência — respondia o vigia, todo alvoroçado.
— Para que você nunca deixe entrar ninguém com realejo no quintal. Entendeu?
— Entendi, Excelência.
O apartamento do Sr. Tomás compunha‑se de duas partes. Quatro grandes cômodos tinham janelas para a rua; dois menores, para o quintal. A parte mais elegante do apartamento destinava‑se aos convidados. Aí se realizavam os banquetes, aí eram recebidos os clientes, aí se hospedavam parentes e conhecidos do advogado, vindos da roça. Raramente o Sr. Tomás aparecia nessa parte — apenas para ver se o parquete estava bem encerado, se os móveis não se estragavam e se lhes tinham tirado a poeira.
Quando ficava em casa, levava dias inteiros no gabinete, do lado do quintal; lia, escrevia cartas ou examinava documentos dos conhecidos que lhe pediam conselho. Se queria descansar a vista, sentava‑se numa poltrona ao pé de uma das janelas e, acendendo um charuto, abismava‑se em meditações. Sabia que o pensamento constituía função muito importante da vida, função que um homem cuidoso da saúde não devia desprezar.
Do outro lado do quintal, em frente das janelas do Sr. Tomás, havia um apartamento alugado a pessoas de menores recursos. Muito tempo morou ali um velho funcionário do tribunal, que, tendo perdido o seu posto, se mudou para Praga. Depois, um alfaiate alugou o pequeno apartamento; mas, como gostava de embriagar‑se de vez em quando, e então fazia barulho, foi despejado. Veio em seguida a viúva de um funcionário, a qual passava o tempo a brigar com a empregada. Mas no dia de S. João uns parentes da província vieram buscar a velha, já muito decrépita (aliás, relativamente rica), e levaram‑na consigo, apesar do seu gênio altercador. O apartamento foi ocupado por duas senhoras e uma menina de uns oito anos.
As senhoras viviam do seu trabalho: uma cosia, a outra fazia meias e coletes numa máquina de tricotar. A menina chamava mãe à mais jovem e bonita das mulheres, e tratava a outra por "senhora".
Tanto as janelas do Sr. Tomás como as das novas moradoras ficavam abertas o dia inteiro. Assim, sentado na sua poltrona, podia o advogado ver perfeitamente o que se passava no apartamento das vizinhas, cujos móveis eram modestos para aquele local. Nas mesas e nas cadeiras, no sofá e na camiseira viam‑se panos para costurar e novelos de algodão para meias.
De manhã as moças varriam, elas mesmas, o apartamento; ao meio‑dia, mais ou menos, uma criada lhes trazia o almoço parco.
Durante o resto do dia, as duas mulheres quase não deixavam as sussurrantes máquinas.
A criança ficava, em geral, sentada à janela. Tinha cabelos pretos e um lindo rostinho, mas era singularmente pálida e de uma calma excessiva. Às vezes, com duas agulhas de tricô, fazia uma cinta com um pouco de linho ou de algodão. Outras vezes, brincava com uma boneca, vestindo‑a e despindo‑a repetidamente, a custo. Em outras ocasiões, não fazia nada; permanecia sentada à janela, à escuta.
Nunca o Sr. Tomás a ouviu cantar nem a viu correr pelo quarto, nem lhe enxergou nunca um sorriso nos lábios exangues e no rosto impassível.
— "Que menina esquisita!" — dizia consigo.
E entrou a observá‑la mais atentamente.
Certo dia — um domingo — notou que a mãe dera à criança um pequeno ramozinho de flores. A menina animou‑se, separou e juntou as flores, beijou‑as. Finalmente fez delas outro ramo e o pôs num copo de água, sentou‑se à janela a disse:
— Mamãe, está muito triste aqui, não é?
O advogado espantou‑se. Como? Triste aquela casa onde ele vivera de bom humor tantos anos?
Outro dia, por volta das quatro horas, o advogado encontrava‑se de novo no seu gabinete. A essa hora o Sol batia na janela das vizinhas, aclarando‑a e aquecendo‑a bastante. O Sr. Tomás olhava para o outro lado do quintal. De repente botou os óculos, como se houvesse algo extraordinário. Eis o que era: A pálida menina, apoiando a cabeça no braço, quase se deitara de costas para a janela, e com os olhos escancarados fitava o Sol. No seu rosto, de ordinário tão impassível, refletiam‑se agora alguns sentimentos, um pouco de alegria, um pouco de tristeza.
— "Ela não vê" — disse consigo o Sr. Tomás, baixando os óculos.
E só de pensar como se podia fitar assim o Sol, que parecia lançar fogo, sentia doerem‑lhe os olhos.
De fato, a menina era cega havia dois anos. Aos seis, adoecera de estranha moléstia, que a deixou desacordada algumas semanas, e depois a tornou tão débil que ela ficava estendida na cama, sem se mover, sem falar, como se estivesse morta. Davam‑lhe vinho e canja, a assim se refazia aos poucos. Mas no primeiro dia em que se pôde sentar na cama, perguntou à mãe:
— Mamãe, agora é noite?
— Não, minha filha... Por que é que você pergunta?
A criança não respondeu; tinha sono. Só no dia seguinte, ao chegar o médico, perguntou de novo:
— Ainda é noite?
Então compreenderam que estava cega. O médico examinou-lhe os olhos e disse que era preciso aguardar.
Mas a doente, à medida que recuperava as forças, preocupava-se cada vez mais com aquela enfermidade:
— Mamãe, por que não posso ver a senhora?
— Porque você tem os olhos tapados. Mas isso há de passar.
— Quando?
— Daqui a algum tempo.
— Amanhã, talvez?
— Dentro de alguns dias, minha filha.
— Então, quando isto passar, mamãe, me avise imediatamente, porque, assim como estou, fico muito triste, por não ver nada.
Dias e semanas decorreram em expectativa. A menina principiou a levantar‑se. Aprendeu a andar no quarto às cegas, vestia‑se e despia‑se sozinha, mas com vagar e cautela. A vista, porém, não voltava.
Um dia, ela disse:
— Mamãe, o meu vestido é azul, não é?
— Não, minha filha, é cinzento.
— Você o vê?
— Vejo‑o, sim, querida.
— Como se fosse dia?
— Sim.
— E eu, eu também voltarei a ver tudo daqui a poucos dias? Dentro de um mês, por exemplo?
Como não obtivesse resposta, continuou:
— Mamãe, na rua é sempre dia, não é? O jardim tem árvores, como dantes? E aquele gatinho branco de patas pretas vem sempre visitar a gente? Não é verdade, mamãe, que eu já me tenho visto num espelho? Você não tem um?
A mãe deu‑lhe um espelho.
— A gente deve olhar aqui, onde o espelho é liso — disse a pequena, aproximando‑o do rosto —, mas não vejo nada. Mamãe, você também não me vê no espelho?
— Vejo‑a, meu bem.
— Como pode ser? — exclamou a menina, aflita. — Se eu não me posso ver, não deveria haver ninguém no espelho... E essa menina que você vê no espelho, ela me vê ou não?
A mãe saiu às pressas, chorando.
O passatempo preferido da menina era tocar diferentes objetos pequenos com as mãos e reconhecê‑los.
Um dia a mãe deu‑lhe uma boneca de porcelana, bem‑vestida, que custara um rublo. A criança não largava a boneca, fazia‑lhe carinhos. Deitou‑se muito tarde, pensando sempre no brinquedo, que guardou numa caixa estofada de algodão.
À noite a mãe foi despertada por um ruído; saltou da cama, acendeu uma vela e viu num canto a sua filha, já vestida, a brincar com a boneca.
— Que é que está fazendo? — exclamou. — Por que não dorme?
— Para que dormir, se já é dia? — respondeu a ceguinha.
Para ela, dia e noite fundiam‑se, e duravam sempre...
Obliterava‑se‑lhe gradualmente a memória das sensações visuais. Uma cereja vermelha tornava‑se uma frutinha lisa, redonda e macia; uma moeda reluzente fazia‑se um pequeno disco duro e tininte, com figurinhas em baixo‑relevo. Ela sabia que o quarto era maior do que ela mesma, a casa maior do que o quarto, a rua maior do que a casa. Mas tudo isto se foi de certa maneira resumindo, na sua imaginação.
Concentrava‑se‑lhe a atenção no tato, no olfato a no ouvido. O rosto a as mãos adquiriram sensibilidade tal que, ao aproximar‑se algumas polegadas de uma parede, sentia um leve frio. Acontecimentos mais afastados penetravam nela pelo ouvido; ficava escutando dias inteiros.
Reconhecia os passos vagarosos do vigia de voz aguda que varria o quintal. Distinguia se o veículo que passava diante da casa era um carro de camponês carregando madeira, um fiacre ou um caminhão de lixo. Não lhe escapava o menor ruído, o cheiro mais leve, um resfriamento ou um aquecimento imperceptível do ar. Com incrível sagacidade, percebia os menores fatos e deles tirava conclusões.
Um dia, ouvindo a mãe chamar a empregada:
— Ela saiu — disse a cega, sentada, como sempre, no seu canto. — Foi buscar água.
— Como é que você sabe? — perguntou a mãe, assombrada.
— Como? Sei que apanhou o regador na cozinha e foi ao outro quintal tirar água com a bomba. Agora está conversando com o vigia.
Com efeito, do outro lado da cerca vinha o som da conversa de duas pessoas, mas tão abafado que dificilmente se podia entender.
Por maior que fosse o aperfeiçoamento dos outros sentidos, não substituía a vista, e a menina começou a ressentir‑se da escassez de impressões e a experimentar saudades.
Permitiam‑lhe andar por toda a casa, o que a serenava um pouco. Conhecia cada pedra do quintal, tocava em todos os algerozes, em todos os barris. Mas o maior prazer advinha‑lhe de excursões a dois mundos inteiramente diversos: o celeiro e a adega.
Na adega o ar era fresco, as paredes úmidas. O bulício da rua chegava de cima, amortecido; os outros sons desapareciam. Para a cega, isso era a noite. No celeiro, sobretudo perto da janelinha, tudo se passava de maneira completamente diversa. Havia mais barulho que no quarto. A menina percebia o ruído dos carros de algumas ruas. De mais a mais, lá se concentravam os rumores da casa inteira. Um vento quente lhe afagava o rosto. Ouvia o gorjeio das aves, o latido dos cães e o sussurro das árvores num jardim vizinho. Era o dia.
Não só isto: no celeiro o Sol brilhava com maior freqüência que no quarto, e, ao volver para o Sol os seus olhos extintos, a pequena tinha a impressão de ver alguma coisa. Na sua imaginação apontavam sombras de formas e cores, mas tão confusas e fugidias que não podia lembrar‑se de nada.
Foi nesse tempo que a mãe, tendo‑se reunido à amiga, se mudou para a casa onde residia o Sr. Tomás. Estavam ambas as senhoras muito contentes da nova morada, mas para a ceguinha a mudança foi um verdadeiro desastre. Era obrigada a ficar no quarto, não lhe sendo permitido ir à adega nem ao celeiro. Não ouvia aves nem árvores. Reinava no quintal um silêncio horrível. Lá nunca entravam belchiores para quebrá‑lo. Era proibida a entrada de velhas mendigas que entoavam cânticos religiosos, assim como de velhos tocadores de clarineta ou de realejo.
A única distração da menina era olhar para o Sol; mas nem sempre este luzia da mesma forma, e não tardava a esconder‑se atrás das casas.
A criança principiou novamente a sentir saudades, emagreceu em poucos dias, e apareceu‑lhe no rosto aquela expressão de desalento e desânimo que tanto espantou o Sr. Tomás.
Não podendo ver, a ceguinha queria ao menos ouvir os rumores mais diferentes; mas a casa era toda silenciosa...
— "Coitada da pequena!" — resmungava por vezes o Sr. Tomás, observando a triste menina. — "E se eu pudesse fazer alguma coisa por ela?" — perguntava, vendo‑a cada vez mais pálida a magra.
Por esse tempo, um amigo do advogado teve um processo e, como de praxe, trouxe‑lhe os autos, pedindo que os examinasse e desse alguns conselhos. Embora já não pleiteasse no tribunal, o Sr. Tomás, como bom profissional que era, sabia sempre indicar o caminho adequado e fornecia ao colega, por ele mesmo escolhido, muitas explicações úteis.
A causa que o Sr. Tomás agora estava examinando era complicada. Quanto mais atentamente a estudava, tanto mais se enchia de paixão. No ancião aposentado acordava o causídico. Já não saía do apartamento, já não verificava se fora tirada a poeira dos móveis. Encerrado no seu gabinete, lia os documentos e tomava notas.
À noite chegou, como de costume, o velho lacaio do advogado, com um relatório dos acontecimentos do dia. Informou que a esposa do doutor partira com os filhos em férias; que não estava sendo feito o fornecimento da água; que o vigia Casimiro, tendo brigado com um policial, fora preso por uma semana. Por fim, perguntou se o senhor advogado não queria falar com o novo vigia. O amo, inclinado sobre os papéis, fumava o seu charuto, lançava anéis de fumaça, e nem volveu os olhos para o fiel criado.
No dia seguinte o Sr. Tomás ainda estudava os autos. Por volta das duas almoçou, e depois tornou ao trabalho. O rosto vermelho e as suíças grisalhas, em combinação com o fundo azul da parede, assemelhavam‑se a uma natureza‑morta. A mãe da menina cega e a sua companheira, que fazia meias à máquina, observavam o advogado, a quem julgavam um viúvo robusto que habitualmente dormia da manhã até à noite, sentado à mesa do trabalho.
No entanto, o Sr. Tomás, bem que estivesse de olhos fechados, não dormia. Meditava sobre o caso.
Em 1872 o cidadão X legou ao sobrinho A uma fazenda, e em 1875, ao sobrinho B, um edifício. B pretendia que em 1872 X era louco, ao passo que A queria provar que ele só enlouquecera em 1875. Porém o marido da irmã do falecido Sr. X apresentou documentos autênticos que provavam que, tanto em 1872 como em 1875, X agia como um doido, pois havia legado a fortuna à irmã já em 1869, tempo em que ainda se achava de posse de todas as suas faculdades.
O Sr. Tomás fora convidado a resolver quando X enlouquecera, e depois a reconciliar as três partes, nenhuma das quais estava disposta a fazer a menor concessão.
Enquanto o Sr. Tomás procurava dirimir todas essas complicações, aconteceu um incidente incompreensível e estranho: No quintal, justamente sob a sua janela, um realejo pôs‑se a berrar.
Se o falecido Sr. X se tivesse levantado do túmulo, houvesse recuperado os sentidos e entrado no gabinete para ajudar o advogado a encontrar a solução, decerto o Sr. Tomás não teria sentido espanto igual ao que experimentou ouvindo o realejo.
E se pelo menos fosse um realejo italiano, de acordes agradáveis como os de uma flauta, de boa fabricação, tocando belas melodias! Mas não! Como para irritá‑lo de modo especial, o instrumento estava quebrado, tocava desafinadamente valsas a polcas ordinárias, a tão alto que as vidraças tremiam. Para cúmulo de desgraça, a tuba do realejo bramia de vez em quando, que nem uma fera raivosa.
Sob a tremenda impressão, o advogado ficou atônito. Não sabia que fazer nem que pensar. Por um instante cismou até que, lendo o testamento do louco Sr. X, ele mesmo houvesse perdido a razão e estivesse sujeito a alucinações. Mas qual! não eram alucinações. Era um verdadeiro realejo de pífanos quebrados e de tubo extra-forte.
No coração do Sr. Tomás, homem tão indulgente, tão afável, levantaram‑se instintos selvagens. Lamentava que a natureza não o tivesse feito rei de Daomei, com o direito de matar os seus súditos, e imaginava o prazer com que, naquele momento, tiraria a vida ao tocador.
Como os homens do gênio do Sr. Tomás, quando violentamente encolerizados, passam com facilidade de projetos audaciosos a realizações terríveis, o advogado saltou à janela como um tigre, decidido a ralhar contra o homem do realejo com palavras as mais ásperas. Já se debruçara no peitoril para gritar "seu vagabundo!", quando ouviu uma voz infantil. Olhou para o apartamento fronteiro.
A menina cega dançava no quarto, batendo palmas. O rostinho pálido estava corado, a boca ria, e, contudo, corriam lágrimas dos olhos extintos. Havia muito tempo a coitadinha não conhecia tamanhas impressões naquela casa tranqüila! Que bela aparição constituíam para ela os acordes falhos do realejo! Que soberbo o rugido da tuba, que por um triz não causou uma apoplexia ao advogado!
Vendo o júbilo da criança, pôs‑se o tocador a marcar o ritmo com o grande salto do sapato e a assobiar feito uma locomotiva ao cruzar‑se com outra.
— Meu Deus! Que beleza, este assobio!
No gabinete do advogado surgiu o seu criado fiel, fora de si, empurrando para a frente o vigia, a exclamar:
— Eu disse a este patife, Excelência, que pusesse logo no olho da rua esse tocador. Expliquei‑lhe que ia receber uma gratificação de V. Exa., e que nós tínhamos um contrato. Mas o malandro chegou da roça há uma semana, e não conhece os nossos costumes. Agora você vai ouvir — gritou, aferrando o braço do vigia. — Escute o que S. Exa. em pessoa lhe vai dizer.
O realejo tocava já a terceira melodia, sempre no mesmo tom desafinado e barulhento das duas primeiras. A menina estava em delírio.
O advogado voltou‑se para o vigia, com a sua calma habitual, embora estivesse um pouco pálido:
— Escute, amigo... Como se chama você?
— Paulo, Excelência.
— Então, Paulo, eu lhe pagarei dez zlotych por mês, mas sabe para quê?
— Para que eu nunca deixe tocarem realejo no quintal — interveio o criado.
— Não — disse o Sr. Tomás. — Para que, por algum tempo, você deixe todos os dias tocarem realejo no quintal. Entendeu?
— Que é que o senhor está dizendo? — exclamou o criado, a quem a ordem incompreensível tornara muito atrevido.
— Digo que ele deve, até ordem em contrário, deixar diariamente tocarem realejo no quintal — repetiu o advogado, pondo as mãos nos bolsos.
— Não estou compreendendo o senhor — disse o criado, com sinais insolentes de surpresa.
— Você é bobo, meu velho amigo — replicou‑lhe bondosamente o Sr. Tomás.
E acrescentou:
— Está bem, voltem ao serviço.
O criado e o vigia saíram. O advogado notou que o seu fiel criado murmurou alguma coisa ao ouvido do companheiro, pondo um dedo na testa.
O Sr. Tomás sorriu‑se e, como para confirmar as sinistras suposições do criado, lançou uma moeda ao tocador do realejo.
Depois, tomando de um calendário, procurou a lista dos médicos e anotou numa folha os endereços de alguns oftalmologistas. Como o tocador, animado pela moeda, se virou agora para a sua janela e entrou a bater com os pés e assobiar ainda com mais força, o que não deixou de irritá‑lo, agarrou a folha e saiu resmungando:
— Coitada da menina! Eu devia ter tomado conta dela há muito tempo...
(Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai — Mar de histórias — Nova Fronteira, Rio, vol.7)
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O PROBLEMA DAS OITO CAIXAS - Malba Tahan
Segundo uma lenda muito antiga, o célebre Califa Al Motacém Billah, rei dos árabes, chamou certa manhã o astucioso Sabag, seu vizir-tesoureiro, e disse-lhe em tom grave, como se ditasse uma sentença irrevogável:
— Dentro de poucas horas, meu caro vizir, receberei a visita do jovem Beremisz Samir, apelidado “o homem que calculava”. Não ignoras, certamente, que o talentoso Beremiz tem deslumbrado esta nossa gloriosa Bagdá com inequívocas demonstrações de seu incomparável engenho e de sua agudíssima inteligência. Os enigmas mais intrincados, os cálculos mais difíceis são, pelo exímio matemático, explicados e resolvidos em rápidos momentos. É meu desejo presentear o ilustre Beremiz com avultada quantia. Gostaria, entretanto, de experimentar também a tão elogiada argúcia do calculista, propondo-lhe durante a nossa entrevista um problema que seja relacionado, de certo modo, com o prêmio que lhe darei em moedas de ouro. Um problema que deixasse o nosso visitante encantado, é verdade, mas também perplexo e confuso.
O vizir Sabag não era homem que se deixasse entibiar diante dos caprichos e fantasias do poderoso emir. Depois de ouvir, cabisbaixo e pensativo, as palavras do rei, ergueu o rosto bronzeado, fitou serenamente o glorioso califa, e assim falou:
— Escuto e obedeço, ó Príncipe dos Crentes! Pelo tom de vossas palavras, adivinho perfeitamente o rumo seguido pela caravana de vossas intenções. É vosso desejo premiar um sábio geômetra com valiosa quantia. Ressalta, dessa intenção, a generosidade sem par de vosso coração. Quereis, entretanto, que este prêmio seja exornado com um problema original e inédito, capaz de surpreender o mais engenhoso dos matemáticos e de encantar o mais delicado dos filósofos. Essa lembrança põe em relevo a elegância de vossas atitudes, pois o visitante, ao ser argüído diante da corte, poderá mais uma vez demonstrar a pujança de seu engenho e o poderio de sua cultura.
Proferidas tais palavras, retirou-se o vizir para a sua sala de trabalho. Decorrido algum tempo, voltou à presença do rei, precedido de dois escravos núbios que conduziam pesada bandeja de prata. Repousavam sobre a bandeja oito caixas de madeira, todas do mesmo tamanho, numeradas de um até oito.
Não pequeno foi o espanto do califa de Bagdá ao ver aquele singular aparato. Qual seria a razão de ser daquelas caixas numeradas de um até oito? Que mistério, no domínio das contas e dos cálculos, poderiam elas envolver? Cheiques e nobres, que se achavam ao lado do rei, entreolhavam-se espantados.
Cabia ao honrado Sabag, ministro da corte, explicar o porquê daquela estranha preparação. Ouçamos, pois, o relato feito pelo digno vizir:
— Cada uma dessas caixas contém um certo número de moedas. O total contido nas caixas é o prêmio que será oferecido ao calculista. As caixas, como podeis observar, estão numeradas de um até oito, e dispostas segundo o número de moedas que cada uma contém. Para esse arranjo das caixas, adotei a ordem crescente. Assim, a caixa designada pelo número 1 encerra o menor número de moedas; vem depois a que é indicada pelo número 2; a seguir aparece a de número 3, e assim por diante até a última, que encerra o maior número de moedas. Para evitar qualquer dúvida, direi desde logo que não é possível encontrar duas caixas com o mesmo número de moedas.
O califa, seriamente intrigado, interpelou o vizir:
— Não percebo, ó eloqüente Sabag, que problema seria possível formular com esses dinares distribuídos por oito caixinhas. Por Allah! Não percebo!
O vizir Sabag, quando moço, fora professor primário e havia aprendido, diante das classes, a ensinar os iletrados, a esclarecer as dúvidas dos menos atilados e dirimir as questões sugeridas pelos mais espertos. Firmemente resolvido a elucidar o glorioso soberano, o velho mestre-escola assim falou:
— Cumpre-me dizer, ó Rei do Tempo, que os dinares não foram distribuídos ao acaso pelas oito caixas. Cada caixa encerra um certo número de moedas. São ao todo, portanto, oito quantias em dinares. Com as quantias distribuídas pelas oito caixas, podemos fazer qualquer pagamento, desde um dinar até o número total contido nas oito caixas, sem precisar abrir nenhuma caixa ou tocar em moeda alguma. Basta separar, da coleção que se acha sobre a bandeja, uma, duas, três, quatro ou mais caixas, e será obtido o total desejado.
— Iallah! É curioso! — comentou maravilhado o emir. — Segundo posso inferir de tua explicação, o arranjo dos dinares, distribuídos pelas oito caixas, permite que se possa retirar do total a quantia que se quiser, sem violar nenhuma das caixas, sem remover moeda alguma?
— Isso mesmo! — confirmou pressuroso o vizir. — Digamos que fosse vosso desejo retirar, por exemplo, do total a quantia de 212 dinares. Nada mais simples. No grupo das oito caixas há algumas cujas porções nelas contidas perfazem a soma de 212. Consistirá a dificuldade do problema, para cada caso, em determinar as caixas que devem ser separadas, a fim de que se obtenha uma determinada quantia, pois o que se fez para 212 poder-se-á fazer para 200, 49, 157, ou qualquer número inteiro até o total de moedas.
Feita breve pausa, a fim de permitir que o rei pudesse fixar idéias e refletir sobre o caso, o inteligente vizir rematou:
— Eis, ó Comendador dos Crentes, em resumo, o problema que poderia ser proposto, diante da corte, ao genial calculista: “Sabendo que estas caixas, numeradas de um até oito, contêm dinares em números que não se repetem; sabendo-se também que é possível efetuar qualquer pagamento até o número total de moedas, sem abrir nenhuma caixa, pergunta-se:
1º - Quantas moedas contém, respectivamente, cada uma das caixas?
2º - Como determinar, por meio do raciocínio, matematicamente certo, a quantia contida em cada uma?
3º - Qual o número total de moedas?
4º - Será possível resolver o mesmo problema distribuindo-se as moedas por um número menor de caixas?”
O divã do califado, isto é, o salão real das audiências, achava-se repleto de nobres e convidados quando, pelo soar surdo e solene do gongo, foi anunciada a visita de Beremiz Samir, “o homem que calculava”. No centro do suntuoso recinto, sobre luxuoso tapete, foi colocada a bandeja com as oito caixas que iriam servir de base para o problema.
Al-Motacém Billah, Príncipe dos Crentes, que se achava em seu trono de ouro e púrpura, rodeado de seus vizires e cádis, dirigiu ao matemático amistosa saudação:
— Sê bem-vindo, ó Beremiz! Sê bem-vindo sob a inspiração de Allah! Que a tua presença neste divã seja motivo de júbilo para todos os nossos amigos, e que de tuas palavras possamos colher as tâmaras deliciosas da sabedoria que eleva as almas e purifica os corações.
Decorreu um momento de impressionante silêncio. Competia ao visitante agradecer aquela honrosa saudação. Inclinando-se Beremiz diante do rei, assim falou:
— Allah badique, ia Sidi! — Deus vos conduza, ó Chefe! Admiro, estimo e exalto aqueles que governam com justiça, bondade e sabedoria. É esse o vosso caso, ó Emir dos Árabes, e todos os vossos súditos proclamam essa verdade. A vossa justiça assegura o poderio do Estado; a vossa bondade cria preciosas dedicações; e a vossa sabedoria fortalece e perpetua a confiança do povo. Ai daqueles cujos governantes são sábios mas regem a vida pela injustiça das ações que praticam! Ai daqueles cujos chefes e dirigentes são justos mas desconhecem a bondade! E Allah, o Clemente, se compadeça daqueles que se acham sob o jugo de homens ignorantes, pérfidos e iníquos.
— As tuas palavras, ó calculista — respondeu o rei mansamente — são para mim como brincos de ouro e rubis. Servem-me de estímulo e enchem-me de orgulho. Vou, mais uma vez, abusar de tua gentileza. Será um encanto, não só para mim, como para todos os nobres, vizires e cheiques que aqui se acham, ouvir a tua palavra, a tua doutíssima opinião, sempre original e brilhante, sobre um problema aritmético que parece desafiar o engenho dos mais insignes matemáticos. Esse problema, formulado pelo vizir Sabag, poderia ser enunciado nos seguintes termos: “Sobre aquela bandeja estão oito caixas. Cada caixa contém um certo número de moedas, e não há duas caixas com o mesmo número de moedas. Afirma o vizir Sabag que a distribuição de moedas pelas oito caixas foi feita de modo a permitir que se possa, do total, destacar qualquer quantia, desde um dinar, sem abrir nenhuma caixa, isto é, sem tocar nas moedas. Resta agora determinar quantas moedas contém cada caixa e qual o total de moedas. Para facilitar a exposição, as caixas estão numeradas de um até oito, segundo a ordem crescente das quantias que encerram”.
E o califa rematou, depois de breve pausa:
— Como orientarias, ó calculista, a solução desse engenhoso problema?
Beremiz Samir, “o homem que calculava”, como bom súdito, não se fez de rogado. Cruzou lentamente os braços, baixou o rosto e pôs-se a meditar. Depois de coordenar as idéias, iniciou a preleção sobre o caso, nos seguintes termos:
— Em nome de Allah, Clemente e Misericordioso! Esse problema é, realmente, um dos mais interessantes que tenho ouvido, e a sua solução, por ser simples e suave, põe em relevo a beleza e a simplicidade sem par da Matemática. Vejamos. A distribuição dos dinares pelas oito caixas foi feita de modo a permitir que separemos uma quantia qualquer, a partir de um dinar, destacando-se da coleção uma, duas, três ou mais caixas. Resta determinar o conteúdo de cada caixa. É evidente que a primeira caixa deve conter um dinar, pois do contrário não poderíamos destacar a unidade do total. Eis a conclusão algemada pela evidência: a caixa designada pelo número 1 contém um dinar.
A segunda caixa deverá conter, forçosamente, dois dinares, pois a quantia de um dinar não pode ser repetida, e se a segunda caixa tivesse três, quatro ou mais dinares não seria possível separar dois dinares do total. Conclusão: já conhecemos os conteúdos respectivos das duas primeiras caixas. Com auxílio dessas duas caixas podemos obter um, dois ou três dinares.
Passemos agora à terceira caixa. Quanto deveria conter? A resposta impõe-se imediatamente: quatro dinares. Com efeito, se a terceira caixa encerrasse mais de quatro dinares, não seria possível, conservando intactas as caixas, separar quatro dinares do total. Para as três primeiras, temos, portanto:
1ª caixa: 1 dinar;
2ª caixa: 2 dinares;
3ª caixa: 4 dinares.
Com auxílio dessas três caixas, podemos formar todas as quantias desde um até sete dinares. Sete representaria o total das três primeiras caixas, isto é, um mais dois mais quatro.
Repetindo o mesmo raciocínio, somos levados a afirmar que a caixa seguinte, isto é, a quarta, deverá conter oito dinares. A inclusão desta caixa com oito dinares permitirá separar do total todas as quantias desde um até quinze. O quinze é formado pelo conteúdo das quatro primeiras caixas.
E a quinta caixa? Não oferece o cálculo de seu conteúdo a menor dificuldade. Uma vez demonstrado que as quatro primeiras caixas totalizam quinze, é evidente que a quinta caixa deverá encerrar dezesseis dinares. A inclusão da quinta caixa ao grupo das quatro primeiras permite que formemos qualquer número desde um até trinta e um, inclusive. O total trinta e um é obtido pela soma das cinco primeiras.
Neste ponto fez o calculista uma pausa rapidíssima, e logo prosseguiu:
— Vejamos, pelo encadeamento natural de nosso raciocínio, se é possível descobrir uma lei, ou regra, que permita calcular os conteúdos respectivos das outras caixas restantes. Para isso convém recapitular:
1ª caixa: 1 moeda;
2ª caixa: 2 moedas;
3ª caixa: 4 moedas;
4ª caixa: 8 moedas;
5ª caixa: 16 moedas.
Observemos que cada caixa, a partir da segunda, contém sempre o dobro do número de moedas da caixa precedente. Dizem os matemáticos que os números 1, 2, 4, 8 e 16 formam uma progressão geométrica crescente, cuja razão é dois — um sistema binário, portanto. Dada a natureza do problema, é fácil provar que se mantém a mesma progressão fixando os conteúdos das quatro caixas seguintes. Temos então:
6ª caixa: 32 moedas;
7ª caixa: 64 moedas;
8ª caixa: 128 moedas;
E o total de moedas em todas as caixas, portanto, é 255.
— Uassalã!
(Adaptado de Malba Tahan, O homem que calculava – Conquista, Rio, 1965)
(Este é o sistema binário, base de funcionamento dos computadores. Bit é a menor informação, correspondendo ao conteúdo de uma caixa, qualquer delas; byte é a informação (número) obtida com uma ou mais caixas escolhidas dentre essas oito. O sistema de oito bits (ou oito caixas, conforme a descrição) permite computar de 0 até 255. Os dez algarismos do sistema decimal ocupam apenas dez possibilidades, e as 245 restantes são usadas pelos programadores para corresponder a letras, sinais gráficos, comandos, etc).
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— Dentro de poucas horas, meu caro vizir, receberei a visita do jovem Beremisz Samir, apelidado “o homem que calculava”. Não ignoras, certamente, que o talentoso Beremiz tem deslumbrado esta nossa gloriosa Bagdá com inequívocas demonstrações de seu incomparável engenho e de sua agudíssima inteligência. Os enigmas mais intrincados, os cálculos mais difíceis são, pelo exímio matemático, explicados e resolvidos em rápidos momentos. É meu desejo presentear o ilustre Beremiz com avultada quantia. Gostaria, entretanto, de experimentar também a tão elogiada argúcia do calculista, propondo-lhe durante a nossa entrevista um problema que seja relacionado, de certo modo, com o prêmio que lhe darei em moedas de ouro. Um problema que deixasse o nosso visitante encantado, é verdade, mas também perplexo e confuso.
O vizir Sabag não era homem que se deixasse entibiar diante dos caprichos e fantasias do poderoso emir. Depois de ouvir, cabisbaixo e pensativo, as palavras do rei, ergueu o rosto bronzeado, fitou serenamente o glorioso califa, e assim falou:
— Escuto e obedeço, ó Príncipe dos Crentes! Pelo tom de vossas palavras, adivinho perfeitamente o rumo seguido pela caravana de vossas intenções. É vosso desejo premiar um sábio geômetra com valiosa quantia. Ressalta, dessa intenção, a generosidade sem par de vosso coração. Quereis, entretanto, que este prêmio seja exornado com um problema original e inédito, capaz de surpreender o mais engenhoso dos matemáticos e de encantar o mais delicado dos filósofos. Essa lembrança põe em relevo a elegância de vossas atitudes, pois o visitante, ao ser argüído diante da corte, poderá mais uma vez demonstrar a pujança de seu engenho e o poderio de sua cultura.
Proferidas tais palavras, retirou-se o vizir para a sua sala de trabalho. Decorrido algum tempo, voltou à presença do rei, precedido de dois escravos núbios que conduziam pesada bandeja de prata. Repousavam sobre a bandeja oito caixas de madeira, todas do mesmo tamanho, numeradas de um até oito.
Não pequeno foi o espanto do califa de Bagdá ao ver aquele singular aparato. Qual seria a razão de ser daquelas caixas numeradas de um até oito? Que mistério, no domínio das contas e dos cálculos, poderiam elas envolver? Cheiques e nobres, que se achavam ao lado do rei, entreolhavam-se espantados.
Cabia ao honrado Sabag, ministro da corte, explicar o porquê daquela estranha preparação. Ouçamos, pois, o relato feito pelo digno vizir:
— Cada uma dessas caixas contém um certo número de moedas. O total contido nas caixas é o prêmio que será oferecido ao calculista. As caixas, como podeis observar, estão numeradas de um até oito, e dispostas segundo o número de moedas que cada uma contém. Para esse arranjo das caixas, adotei a ordem crescente. Assim, a caixa designada pelo número 1 encerra o menor número de moedas; vem depois a que é indicada pelo número 2; a seguir aparece a de número 3, e assim por diante até a última, que encerra o maior número de moedas. Para evitar qualquer dúvida, direi desde logo que não é possível encontrar duas caixas com o mesmo número de moedas.
O califa, seriamente intrigado, interpelou o vizir:
— Não percebo, ó eloqüente Sabag, que problema seria possível formular com esses dinares distribuídos por oito caixinhas. Por Allah! Não percebo!
O vizir Sabag, quando moço, fora professor primário e havia aprendido, diante das classes, a ensinar os iletrados, a esclarecer as dúvidas dos menos atilados e dirimir as questões sugeridas pelos mais espertos. Firmemente resolvido a elucidar o glorioso soberano, o velho mestre-escola assim falou:
— Cumpre-me dizer, ó Rei do Tempo, que os dinares não foram distribuídos ao acaso pelas oito caixas. Cada caixa encerra um certo número de moedas. São ao todo, portanto, oito quantias em dinares. Com as quantias distribuídas pelas oito caixas, podemos fazer qualquer pagamento, desde um dinar até o número total contido nas oito caixas, sem precisar abrir nenhuma caixa ou tocar em moeda alguma. Basta separar, da coleção que se acha sobre a bandeja, uma, duas, três, quatro ou mais caixas, e será obtido o total desejado.
— Iallah! É curioso! — comentou maravilhado o emir. — Segundo posso inferir de tua explicação, o arranjo dos dinares, distribuídos pelas oito caixas, permite que se possa retirar do total a quantia que se quiser, sem violar nenhuma das caixas, sem remover moeda alguma?
— Isso mesmo! — confirmou pressuroso o vizir. — Digamos que fosse vosso desejo retirar, por exemplo, do total a quantia de 212 dinares. Nada mais simples. No grupo das oito caixas há algumas cujas porções nelas contidas perfazem a soma de 212. Consistirá a dificuldade do problema, para cada caso, em determinar as caixas que devem ser separadas, a fim de que se obtenha uma determinada quantia, pois o que se fez para 212 poder-se-á fazer para 200, 49, 157, ou qualquer número inteiro até o total de moedas.
Feita breve pausa, a fim de permitir que o rei pudesse fixar idéias e refletir sobre o caso, o inteligente vizir rematou:
— Eis, ó Comendador dos Crentes, em resumo, o problema que poderia ser proposto, diante da corte, ao genial calculista: “Sabendo que estas caixas, numeradas de um até oito, contêm dinares em números que não se repetem; sabendo-se também que é possível efetuar qualquer pagamento até o número total de moedas, sem abrir nenhuma caixa, pergunta-se:
1º - Quantas moedas contém, respectivamente, cada uma das caixas?
2º - Como determinar, por meio do raciocínio, matematicamente certo, a quantia contida em cada uma?
3º - Qual o número total de moedas?
4º - Será possível resolver o mesmo problema distribuindo-se as moedas por um número menor de caixas?”
O divã do califado, isto é, o salão real das audiências, achava-se repleto de nobres e convidados quando, pelo soar surdo e solene do gongo, foi anunciada a visita de Beremiz Samir, “o homem que calculava”. No centro do suntuoso recinto, sobre luxuoso tapete, foi colocada a bandeja com as oito caixas que iriam servir de base para o problema.
Al-Motacém Billah, Príncipe dos Crentes, que se achava em seu trono de ouro e púrpura, rodeado de seus vizires e cádis, dirigiu ao matemático amistosa saudação:
— Sê bem-vindo, ó Beremiz! Sê bem-vindo sob a inspiração de Allah! Que a tua presença neste divã seja motivo de júbilo para todos os nossos amigos, e que de tuas palavras possamos colher as tâmaras deliciosas da sabedoria que eleva as almas e purifica os corações.
Decorreu um momento de impressionante silêncio. Competia ao visitante agradecer aquela honrosa saudação. Inclinando-se Beremiz diante do rei, assim falou:
— Allah badique, ia Sidi! — Deus vos conduza, ó Chefe! Admiro, estimo e exalto aqueles que governam com justiça, bondade e sabedoria. É esse o vosso caso, ó Emir dos Árabes, e todos os vossos súditos proclamam essa verdade. A vossa justiça assegura o poderio do Estado; a vossa bondade cria preciosas dedicações; e a vossa sabedoria fortalece e perpetua a confiança do povo. Ai daqueles cujos governantes são sábios mas regem a vida pela injustiça das ações que praticam! Ai daqueles cujos chefes e dirigentes são justos mas desconhecem a bondade! E Allah, o Clemente, se compadeça daqueles que se acham sob o jugo de homens ignorantes, pérfidos e iníquos.
— As tuas palavras, ó calculista — respondeu o rei mansamente — são para mim como brincos de ouro e rubis. Servem-me de estímulo e enchem-me de orgulho. Vou, mais uma vez, abusar de tua gentileza. Será um encanto, não só para mim, como para todos os nobres, vizires e cheiques que aqui se acham, ouvir a tua palavra, a tua doutíssima opinião, sempre original e brilhante, sobre um problema aritmético que parece desafiar o engenho dos mais insignes matemáticos. Esse problema, formulado pelo vizir Sabag, poderia ser enunciado nos seguintes termos: “Sobre aquela bandeja estão oito caixas. Cada caixa contém um certo número de moedas, e não há duas caixas com o mesmo número de moedas. Afirma o vizir Sabag que a distribuição de moedas pelas oito caixas foi feita de modo a permitir que se possa, do total, destacar qualquer quantia, desde um dinar, sem abrir nenhuma caixa, isto é, sem tocar nas moedas. Resta agora determinar quantas moedas contém cada caixa e qual o total de moedas. Para facilitar a exposição, as caixas estão numeradas de um até oito, segundo a ordem crescente das quantias que encerram”.
E o califa rematou, depois de breve pausa:
— Como orientarias, ó calculista, a solução desse engenhoso problema?
Beremiz Samir, “o homem que calculava”, como bom súdito, não se fez de rogado. Cruzou lentamente os braços, baixou o rosto e pôs-se a meditar. Depois de coordenar as idéias, iniciou a preleção sobre o caso, nos seguintes termos:
— Em nome de Allah, Clemente e Misericordioso! Esse problema é, realmente, um dos mais interessantes que tenho ouvido, e a sua solução, por ser simples e suave, põe em relevo a beleza e a simplicidade sem par da Matemática. Vejamos. A distribuição dos dinares pelas oito caixas foi feita de modo a permitir que separemos uma quantia qualquer, a partir de um dinar, destacando-se da coleção uma, duas, três ou mais caixas. Resta determinar o conteúdo de cada caixa. É evidente que a primeira caixa deve conter um dinar, pois do contrário não poderíamos destacar a unidade do total. Eis a conclusão algemada pela evidência: a caixa designada pelo número 1 contém um dinar.
A segunda caixa deverá conter, forçosamente, dois dinares, pois a quantia de um dinar não pode ser repetida, e se a segunda caixa tivesse três, quatro ou mais dinares não seria possível separar dois dinares do total. Conclusão: já conhecemos os conteúdos respectivos das duas primeiras caixas. Com auxílio dessas duas caixas podemos obter um, dois ou três dinares.
Passemos agora à terceira caixa. Quanto deveria conter? A resposta impõe-se imediatamente: quatro dinares. Com efeito, se a terceira caixa encerrasse mais de quatro dinares, não seria possível, conservando intactas as caixas, separar quatro dinares do total. Para as três primeiras, temos, portanto:
1ª caixa: 1 dinar;
2ª caixa: 2 dinares;
3ª caixa: 4 dinares.
Com auxílio dessas três caixas, podemos formar todas as quantias desde um até sete dinares. Sete representaria o total das três primeiras caixas, isto é, um mais dois mais quatro.
Repetindo o mesmo raciocínio, somos levados a afirmar que a caixa seguinte, isto é, a quarta, deverá conter oito dinares. A inclusão desta caixa com oito dinares permitirá separar do total todas as quantias desde um até quinze. O quinze é formado pelo conteúdo das quatro primeiras caixas.
E a quinta caixa? Não oferece o cálculo de seu conteúdo a menor dificuldade. Uma vez demonstrado que as quatro primeiras caixas totalizam quinze, é evidente que a quinta caixa deverá encerrar dezesseis dinares. A inclusão da quinta caixa ao grupo das quatro primeiras permite que formemos qualquer número desde um até trinta e um, inclusive. O total trinta e um é obtido pela soma das cinco primeiras.
Neste ponto fez o calculista uma pausa rapidíssima, e logo prosseguiu:
— Vejamos, pelo encadeamento natural de nosso raciocínio, se é possível descobrir uma lei, ou regra, que permita calcular os conteúdos respectivos das outras caixas restantes. Para isso convém recapitular:
1ª caixa: 1 moeda;
2ª caixa: 2 moedas;
3ª caixa: 4 moedas;
4ª caixa: 8 moedas;
5ª caixa: 16 moedas.
Observemos que cada caixa, a partir da segunda, contém sempre o dobro do número de moedas da caixa precedente. Dizem os matemáticos que os números 1, 2, 4, 8 e 16 formam uma progressão geométrica crescente, cuja razão é dois — um sistema binário, portanto. Dada a natureza do problema, é fácil provar que se mantém a mesma progressão fixando os conteúdos das quatro caixas seguintes. Temos então:
6ª caixa: 32 moedas;
7ª caixa: 64 moedas;
8ª caixa: 128 moedas;
E o total de moedas em todas as caixas, portanto, é 255.
— Uassalã!
(Adaptado de Malba Tahan, O homem que calculava – Conquista, Rio, 1965)
(Este é o sistema binário, base de funcionamento dos computadores. Bit é a menor informação, correspondendo ao conteúdo de uma caixa, qualquer delas; byte é a informação (número) obtida com uma ou mais caixas escolhidas dentre essas oito. O sistema de oito bits (ou oito caixas, conforme a descrição) permite computar de 0 até 255. Os dez algarismos do sistema decimal ocupam apenas dez possibilidades, e as 245 restantes são usadas pelos programadores para corresponder a letras, sinais gráficos, comandos, etc).
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O PRIMEIRO IMPULSO - Autor persa anônimo
Tooriri era um cidadão rico de Bagdá, universalmente famoso por suas virtudes. Não se limitava a assistir aos pobres a ponto de, em vez de levar uma existência das mais luxuosas, viver apenas confortavelmente; escutava com a mais delicada paciência as queixas de todos os sofredores que o procuravam, consolava‑os com palavras carinhosas e ajudava‑os de todas as maneiras possíveis.
Suportava com resignação as mil e uma pequenas misérias que constituem a maior parte da vida humana. Tolerante em alto grau, não se aborrecia se os outros não lhe partilhavam as opiniões — virtude difícil e rara, pois o desejo secreto de cada homem é que o resto da humanidade lhe seja inferior e, ao mesmo tempo, semelhante.
Casado com uma megera, mantinha‑se‑lhe fiel, perdoava‑lhe o mau gênio, e jamais a fazia sentir que não era nem moça nem bonita. Prosador e poeta, regozijava‑se com o êxito dos rivais e manifestava‑lhes benevolência e amizade em expressões corteses e sinceras.
Numa palavra, sua vida era toda caridade, gentileza, lealdade e altruísmo, e consideravam‑no, ao mesmo tempo, um santo e um perfeito cavalheiro.
Ao seu semblante, porém, faltava a serenidade que por via de regra caracteriza as feições de um santo. Parecia o de uma pessoa agitada por paixões violentas ou roída de secreta angústia. Não raro o viam estacar e baixar os olhos para recobrar o domínio de si mesmo e impedir que lhe adivinhassem os pensamentos. Mas ninguém prestava a isso a menor atenção.
Não longe de Bagdá vivia um eremita por nome Maitreya, autor de numerosos milagres, cuja morada era objeto da veneração de muitos peregrinos. Tendo‑se posto acima das contingências do comum da humanidade, Maitreya conservava‑se em tamanha imobilidade que as andorinhas vinham a construíam ninhos em seus ombros. A barba, espessa como a cauda das vacas sagradas, chegava‑lhe à cintura, e o seu corpo semelhava um tronco de árvore. Vivia assim desde uns noventa anos, pois era este o seu ideal.
Certo dia um peregrino disse na sua presença:
— Tooriri, de tão bom, parece uma encarnação de Ormuzd. Sem dúvida todo o sofrimento desapareceria da face da Terra se um homem destes pudesse fazer tudo quanto quisesse.
Ainda mais rígida se fez a imobilidade de Maitreya. Evidentemente o santo homem entrara em comunicação direta com o próprio Ormuzd. Depois de pensar uns instantes, respondeu ao peregrino:
— Não me é possível alcançar que Ormuzd conceda a Tooriri o poder de realizar todos os seus desejos, pois assim ele se tornaria um deus. No entanto, Ormuzd, em sua bondade, permite que, de amanhã por diante, o primeiro impulso deste santo homem, em todas as circunstâncias de sua vida, se transforme em realidade.
— É quase a mesma coisa! — exclamou o peregrino. — O primeiro impulso de Tooriri, como todos os seus desejos, será generoso e caridoso. Venerável Maitreya, acabais de me anunciar uma nova que há de trazer a ventura a muita gente, e eu vos agradeço.
Se a barba de Maitreya fosse menos impenetrável, poderia o peregrino ter vislumbrado a sombra de um sorriso em seus lábios empedernidos. Mas logo depois ele voltou a abismar‑se nas suas eternas cismas.
Tornou à cidade o peregrino, regozijando‑se de antemão com os muitos atos de caridade em que se havia de patentear no dia seguinte o poder do sábio Tooriri.
No dia seguinte, Tooriri despertou antes da mulher e fitou‑a por um momento. Movida por força misteriosa, ela se levantou, dirigiu‑se à janela, galgou o peitoril a precipitou‑se, rachando a cabeça no pavimento da rua.
Ao sair de casa, aproximou‑se dele um grupo de mendigos a pedir esmola. Não lhes disse nenhuma palavra dura, e automaticamente a sua mão se encaminhou à bolsa; mas, antes de alcançá-la, todos os mendigos lhe caíram mortos aos pés.
Adiante, encontrou a linda Mandaniki, e ele, o sábio, o virtuoso Tooriri, inclinou‑se diante dela e acompanhou‑a a casa. Ali, a mulher, enquanto lhe contava a história da própria vida e ele a apertava com ternura ao próprio coração, expirou‑lhe nos braços.
Mal deixou a residência de Mandaniki, ficou detido numa encruzilhada por certo número de veículos que obstruíam a passagem, e começou a perder a paciência. Nisto, todos os cocheiros caíram das respectivas boléias e todos os cavalos tiveram os tendões cortados como por invisível foice.
À noite foi ele ao teatro, e pôs‑se a discutir com o erudito Sarvilaka acerca de um verso atribuído por este a Nizami, e que Tooriri julgava escrito por Saadi, o poeta das rosas. De súbito, o letrado deixou‑se cair na sua poltrona e vomitou uma golfada de sangue negro. A comédia representada naquela noite obteve grande êxito, sendo os atores unanimemente aplaudidos. Porém, poucos minutos antes que Tooriri resolvesse aderir ao reconhecimento do mérito do autor, este rendeu a alma ao Criador de maneira totalmente inesperada.
Tooriri voltou para casa horrorizado daquela mortandade geral. Desesperado, incapaz de compreender a razão de tudo aquilo, matou‑se, atravessando o coração com um punhal.
Na mesma noite morreu também o santo eremita Maitreya.
Compareceram os dois ao mesmo tempo perante o sábio Ormuzd. O eremita pensava: "Não me seria nada desagradável assistir ao merecido castigo desse falso santo, cuja virtude foi por tanto tempo admirada pelos persas, mas que, num único dia em que pôde mostrar‑se tal qual era na realidade, se cobriu de inúmeros pecados e crimes".
Porém o sábio Ormuzd falou assim:
— Virtuoso Tooriri, homem realmente generoso e bom, meu leal e fiel servidor, vem, entra na paz eterna.
— Boa bola! — exclamou o eremita.
— Em momento algum de minha vida falei mais sério — replicou Ormuzd. — Tooriri, desejaste o aniquilamento de tua esposa porque não era bondosa e já não tinha beleza; quiseste a morte dos mendigos porque te importunaram, e seu aspecto era hediondo; a de tua amante, porque era uma tola; o fim dos cocheiros e o extermínio dos cavalos, porque te forçaram a esperar quando tinhas pressa; o desaparecimento do letrado Sarvilaka, porque professava opinião diferente da tua; a do autor da comédia, porque obtivera aplausos maiores que os alcançados por ti. Todos esses desejos eram perfeitamente naturais. Os assassínios de que Maitreya te acusa foram, à tua revelia, efeitos do teu primeiro impulso, porquanto ninguém pode conter o seu primeiro impulso e desejo. Um homem odeia inevitavelmente o que o tolhe, e não menos inevitavelmente deseja o aniquilamento daquilo que odeia. A natureza é egoísta, e o nome do egoísmo é destruição. O mais virtuoso dos homens é, antes de tudo, no íntimo da alma, um patife; e se lhe fosse concedido transformar em realidade o seu primeiro desejo, impulsivo e involuntário, dentro em pouco a Terra se transformaria num deserto, sem nenhum ser humano a habitá‑la. Foi o que eu pretendi mostrar, Tooriri, com o teu exemplo: o homem é julgado pelo seu segundo desejo, pois que este depende da sua vontade. Não fora o dom misterioso que, a teu pesar, tornou o teu último dia tão mortífero, tua vida teria continuado virtuosa e caridosa. O que devo considerar em ti não é a tua natureza, mas a tua vontade, que sempre tendeu para o bem e procurou sempre corrigir a tua natureza e aperfeiçoar a minha obra imperfeita. Eis por que, meu colaborador querido, eu hoje escancaro diante de ti a porta do meu paraíso.
— Essa é boa! — exclamou Maitreya. — Que fareis, então, por mim? Que recompensa me reservastes?
— A mesma — replicou Ormuzd —, embora só a tenhas merecido imperfeitamente. Foste um santo, mas, se em tudo deixaste de ser humano, humano foste no teu orgulho. Conseguiste a supressão do primeiro impulso; mas, se todos os homens fossem viver como tu, a humanidade desapareceria da face da Terra ainda mais depressa do que se cada homem possuísse o poder maravilhoso que por um dia infligi a este meu fiel servo. Ora, a mim me convém que a humanidade continue, porque isto me diverte e porque o espetáculo que me oferece chega a ser, às vezes, sublime. O teu esforço, mísero asceta, não era de todo desprovido de certa espécie de beleza, e por isso te perdôo o teu erro crasso. Numa palavra: a Tooriri abro as portas do Paraíso e o acolho em meu seio, porque sou justo; a ti, Maitreya, permito que entres, porque sou generoso.
— Mas... — disse Maitreya.
E Ormuzd, erguendo o austero semblante:
— Tenho dito.
(Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai — Mar de Histórias — Nova Fronteira, Rio, Vol. 5)
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Suportava com resignação as mil e uma pequenas misérias que constituem a maior parte da vida humana. Tolerante em alto grau, não se aborrecia se os outros não lhe partilhavam as opiniões — virtude difícil e rara, pois o desejo secreto de cada homem é que o resto da humanidade lhe seja inferior e, ao mesmo tempo, semelhante.
Casado com uma megera, mantinha‑se‑lhe fiel, perdoava‑lhe o mau gênio, e jamais a fazia sentir que não era nem moça nem bonita. Prosador e poeta, regozijava‑se com o êxito dos rivais e manifestava‑lhes benevolência e amizade em expressões corteses e sinceras.
Numa palavra, sua vida era toda caridade, gentileza, lealdade e altruísmo, e consideravam‑no, ao mesmo tempo, um santo e um perfeito cavalheiro.
Ao seu semblante, porém, faltava a serenidade que por via de regra caracteriza as feições de um santo. Parecia o de uma pessoa agitada por paixões violentas ou roída de secreta angústia. Não raro o viam estacar e baixar os olhos para recobrar o domínio de si mesmo e impedir que lhe adivinhassem os pensamentos. Mas ninguém prestava a isso a menor atenção.
Não longe de Bagdá vivia um eremita por nome Maitreya, autor de numerosos milagres, cuja morada era objeto da veneração de muitos peregrinos. Tendo‑se posto acima das contingências do comum da humanidade, Maitreya conservava‑se em tamanha imobilidade que as andorinhas vinham a construíam ninhos em seus ombros. A barba, espessa como a cauda das vacas sagradas, chegava‑lhe à cintura, e o seu corpo semelhava um tronco de árvore. Vivia assim desde uns noventa anos, pois era este o seu ideal.
Certo dia um peregrino disse na sua presença:
— Tooriri, de tão bom, parece uma encarnação de Ormuzd. Sem dúvida todo o sofrimento desapareceria da face da Terra se um homem destes pudesse fazer tudo quanto quisesse.
Ainda mais rígida se fez a imobilidade de Maitreya. Evidentemente o santo homem entrara em comunicação direta com o próprio Ormuzd. Depois de pensar uns instantes, respondeu ao peregrino:
— Não me é possível alcançar que Ormuzd conceda a Tooriri o poder de realizar todos os seus desejos, pois assim ele se tornaria um deus. No entanto, Ormuzd, em sua bondade, permite que, de amanhã por diante, o primeiro impulso deste santo homem, em todas as circunstâncias de sua vida, se transforme em realidade.
— É quase a mesma coisa! — exclamou o peregrino. — O primeiro impulso de Tooriri, como todos os seus desejos, será generoso e caridoso. Venerável Maitreya, acabais de me anunciar uma nova que há de trazer a ventura a muita gente, e eu vos agradeço.
Se a barba de Maitreya fosse menos impenetrável, poderia o peregrino ter vislumbrado a sombra de um sorriso em seus lábios empedernidos. Mas logo depois ele voltou a abismar‑se nas suas eternas cismas.
Tornou à cidade o peregrino, regozijando‑se de antemão com os muitos atos de caridade em que se havia de patentear no dia seguinte o poder do sábio Tooriri.
No dia seguinte, Tooriri despertou antes da mulher e fitou‑a por um momento. Movida por força misteriosa, ela se levantou, dirigiu‑se à janela, galgou o peitoril a precipitou‑se, rachando a cabeça no pavimento da rua.
Ao sair de casa, aproximou‑se dele um grupo de mendigos a pedir esmola. Não lhes disse nenhuma palavra dura, e automaticamente a sua mão se encaminhou à bolsa; mas, antes de alcançá-la, todos os mendigos lhe caíram mortos aos pés.
Adiante, encontrou a linda Mandaniki, e ele, o sábio, o virtuoso Tooriri, inclinou‑se diante dela e acompanhou‑a a casa. Ali, a mulher, enquanto lhe contava a história da própria vida e ele a apertava com ternura ao próprio coração, expirou‑lhe nos braços.
Mal deixou a residência de Mandaniki, ficou detido numa encruzilhada por certo número de veículos que obstruíam a passagem, e começou a perder a paciência. Nisto, todos os cocheiros caíram das respectivas boléias e todos os cavalos tiveram os tendões cortados como por invisível foice.
À noite foi ele ao teatro, e pôs‑se a discutir com o erudito Sarvilaka acerca de um verso atribuído por este a Nizami, e que Tooriri julgava escrito por Saadi, o poeta das rosas. De súbito, o letrado deixou‑se cair na sua poltrona e vomitou uma golfada de sangue negro. A comédia representada naquela noite obteve grande êxito, sendo os atores unanimemente aplaudidos. Porém, poucos minutos antes que Tooriri resolvesse aderir ao reconhecimento do mérito do autor, este rendeu a alma ao Criador de maneira totalmente inesperada.
Tooriri voltou para casa horrorizado daquela mortandade geral. Desesperado, incapaz de compreender a razão de tudo aquilo, matou‑se, atravessando o coração com um punhal.
Na mesma noite morreu também o santo eremita Maitreya.
Compareceram os dois ao mesmo tempo perante o sábio Ormuzd. O eremita pensava: "Não me seria nada desagradável assistir ao merecido castigo desse falso santo, cuja virtude foi por tanto tempo admirada pelos persas, mas que, num único dia em que pôde mostrar‑se tal qual era na realidade, se cobriu de inúmeros pecados e crimes".
Porém o sábio Ormuzd falou assim:
— Virtuoso Tooriri, homem realmente generoso e bom, meu leal e fiel servidor, vem, entra na paz eterna.
— Boa bola! — exclamou o eremita.
— Em momento algum de minha vida falei mais sério — replicou Ormuzd. — Tooriri, desejaste o aniquilamento de tua esposa porque não era bondosa e já não tinha beleza; quiseste a morte dos mendigos porque te importunaram, e seu aspecto era hediondo; a de tua amante, porque era uma tola; o fim dos cocheiros e o extermínio dos cavalos, porque te forçaram a esperar quando tinhas pressa; o desaparecimento do letrado Sarvilaka, porque professava opinião diferente da tua; a do autor da comédia, porque obtivera aplausos maiores que os alcançados por ti. Todos esses desejos eram perfeitamente naturais. Os assassínios de que Maitreya te acusa foram, à tua revelia, efeitos do teu primeiro impulso, porquanto ninguém pode conter o seu primeiro impulso e desejo. Um homem odeia inevitavelmente o que o tolhe, e não menos inevitavelmente deseja o aniquilamento daquilo que odeia. A natureza é egoísta, e o nome do egoísmo é destruição. O mais virtuoso dos homens é, antes de tudo, no íntimo da alma, um patife; e se lhe fosse concedido transformar em realidade o seu primeiro desejo, impulsivo e involuntário, dentro em pouco a Terra se transformaria num deserto, sem nenhum ser humano a habitá‑la. Foi o que eu pretendi mostrar, Tooriri, com o teu exemplo: o homem é julgado pelo seu segundo desejo, pois que este depende da sua vontade. Não fora o dom misterioso que, a teu pesar, tornou o teu último dia tão mortífero, tua vida teria continuado virtuosa e caridosa. O que devo considerar em ti não é a tua natureza, mas a tua vontade, que sempre tendeu para o bem e procurou sempre corrigir a tua natureza e aperfeiçoar a minha obra imperfeita. Eis por que, meu colaborador querido, eu hoje escancaro diante de ti a porta do meu paraíso.
— Essa é boa! — exclamou Maitreya. — Que fareis, então, por mim? Que recompensa me reservastes?
— A mesma — replicou Ormuzd —, embora só a tenhas merecido imperfeitamente. Foste um santo, mas, se em tudo deixaste de ser humano, humano foste no teu orgulho. Conseguiste a supressão do primeiro impulso; mas, se todos os homens fossem viver como tu, a humanidade desapareceria da face da Terra ainda mais depressa do que se cada homem possuísse o poder maravilhoso que por um dia infligi a este meu fiel servo. Ora, a mim me convém que a humanidade continue, porque isto me diverte e porque o espetáculo que me oferece chega a ser, às vezes, sublime. O teu esforço, mísero asceta, não era de todo desprovido de certa espécie de beleza, e por isso te perdôo o teu erro crasso. Numa palavra: a Tooriri abro as portas do Paraíso e o acolho em meu seio, porque sou justo; a ti, Maitreya, permito que entres, porque sou generoso.
— Mas... — disse Maitreya.
E Ormuzd, erguendo o austero semblante:
— Tenho dito.
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O PRESENTE DE ANIVERSÁRIO DO VOVÔ - Herman Haijermans
Pobres como todos da família eram, nenhum deles fora capaz de elevar-se sequer a uma moderada condição de prosperidade. Era regra invariável para eles estar constantemente alerta, à espera de alguma miraculosa reviravolta da fortuna, em virtude da qual os cofres cronicamente vazios pudessem repentinamente abarrotar-se.
Jet, a filha mais velha, havia por algum tempo tido muito êxito, até o momento em que o marido fora internado no hospital. Era seu plano oferecer ao avô uma nova Bíblia com um fecho de ouro folheado, enquanto que cada um dos netos o presentearia com uma ninharia sem importância. Esse plano não exigia despesa excessiva, que pudesse ser mais tarde lamentada.
Dirk tinha seis anos menos que a irmã. Três outros irmãos e irmãs haviam falecido ainda ao tempo em que a mãe deles era viva. Dirk pouco ligou à proposta da irmã; era de opinião que se o avô ia possuir uma Bíblia com um fecho de ouro, não deixaria absolutamente de usar a velha Bíblia, que havia sempre lido em companhia da mulher. Além de tudo, Dirk possuía planos próprios, e cada um tinha direito às suas convicções. Ele não entrava numa igreja havia anos, e certamente votaria contra a idéia da Bíblia. Se eles todos deviam cotizar-se para dar um presente, era preciso ter-se o assentimento de todos. Ora, Dirk havia visto uma esplêndida poltrona na vitrina de uma loja de móveis onde todos os preços haviam sofrido uma redução de vinte por cento. Oferecendo-a ao velho, algumas palavras bem escolhidas poderiam ser-lhe endereçadas com o peculiar sentido de augurar-lhe descanso nos últimos anos de sua vida. Além disso, a poltrona em que ele lia o seu jornal junto à janela era uma ruína; suas molas já cutucavam o assento.
Marie era a segunda filha. Havia sido separada do marido a expensas do Estado, e agora esperava o quarto filho, antes de ser dada a sentença final. Só mesmo Dirk poderia propor uma coisa daquelas! Ninguém forçava o avô a sentar-se sobre as molas da velha poltrona; além do mais, não fora vovô quem arruinara o assento por muito usá-lo? Vovô dissera isso mil vezes. Se a família toda ia dar-lhe um presente, devia ser uma coisa útil, e não algo estúpido. Agora, um sobretudo, um gorro quentinho, um par de luvas ou uns chinelos bons e fortes, isso, sim, seria prático e quase nada dispendioso.
Piet e Frans, nenhum deles havia contribuído com alguma coisa para a caixa familiar durante o ano anterior. Haviam visitado várias vezes a casa de penhores e tiveram que ser auxiliados pelo avô. Fizeram mais barulho que todos os outros e manifestaram-se irrevogavelmente contra a Bíblia, a poltrona e o sobretudo. Tinham idéias grandiosas, porém sem o cum quibus para realizá-las; falaram em decorar a sala de estar com bandeirolas e festões, enquanto vovô estivesse dormindo, e calcularam o custo de um generoso estoque de aguardente, licores e gim.
Henk era o mais novo. Havia recentemente se engajado para o serviço nas Índias Orientais. Apesar de haver já há muito gasto o último vintém do prêmio do alistamento, achava que o problema da decisão acerca do presente (restavam poucos dias para a data do aniversário) deveria ser resolvido com oferecer-se ao velho uma fotografia da família inteira, filhos e netos, todos juntos num grupo. Seria uma bela coisa para todos, especialmente para o próprio Henk, quando estivesse longe, nas Índias.
Depois de alguma discussão, essa proposta foi aceita. E no dia seguinte lá se dirigiram eles ao estabelecimento fotográfico e posaram. Membro algum da família faltou, e mesmo Toon, o marido de Jet, que havia saído do hospital na noite anterior, com a barba muito crescida, conseguiu estar presente. As mulheres — Marie, Truns e Jet — sentaram-se em cadeiras, no centro do grupo. Os homens — Dirk, Piet, Frans, Henk e Toon — puseram-se atrás, de pé, Piet na extremidade esquerda, com seu filho de um ano e meio, e Henk, no seu uniforme novo, na extremidade direita, com Santje, a mais nova das choramingas crianças de Jet. Os outros cinco netos ajoelharam-se no assoalho, apoiados aos joelhos das mães.
Eram quatorze ao todo, um número a mais que o aziago. Disse o fotógrafo que raramente tivera o prazer de ver um grupo mais distinto no seu estúdio. Entretanto, não foi fácil para o artista executar o seu trabalho. Willy de Piet sustentou um berreiro contínuo, pois o amedrontava o barbudo sujeito que metia a cabeça sob o pano negro; e quando o fotógrafo sacudiu uma boneca sobre a câmera, a fim de atrair a atenção dos outros pequenos, Willy deu tal grito que Truns teve de levantar-se para acalmá-lo. Isso continuou por um inteiro quarto de hora, e quando finalmente conseguiram desembaraçar-se, estavam em tal tensão que se punham a rir quando alguém suspirava ou falava. As primeiras duas tentativas de pose não tiveram êxito. Na primeira, Santje espirrou — de propósito, pareceu — e justamente quando o fotógrafo acabou de contar até três, Henk berrou. Na segunda vez, Kareltje de Marie pôs-se de pé muito cedo, porque pensou que a coisa terminara, e queria acertar as contas com Jan de Jet que o havia beliscado. Cada uma das crianças recebeu o seu puxão de orelha. Depois que amainou a choradeira, e que cada um se manteve quieto, na sua melhor posição domingueira, tudo foi bem na terceira tentativa.
Ninguém esperava que o fotógrafo fosse pedir um pagamento imediato; mas, conhecendo ele Dirk, que trabalhava na mercearia em frente, insistiu no recebimento. O rapaz deu-lhe por conta dois florins, e o profissional prometeu que o retrato estaria pronto na Quarta-feira de manhã, às dez horas.
— Mas — perguntou prudentemente Dirk, — e se a coisa não sair bem?
— Nesse caso — replicou o fotógrafo, — vocês não precisam pagar.
— Muito bem, então — disse Dirk, com evidente alívio.
Naturalmente tudo foi conservado em segredo para o avô. Quer dizer: sobre o caso ele foi informado, até à noitinha, por não mais que quatro membros da família. Jan de Jet havia aparecido à tarde, com sua irmã, para pedir balas e dois centavos.
— Vovô — disse ele —, eu sei o que o senhor vai ganhar no seu aniversário; o senhor nem pode imaginar o que é.
O velho riu, e tirando o cachimbo de entre as desdentadas gengivas, perguntou:
— É uma coisa muito bonita, hein, Jan?
— Nós não devemos dizer, vovô.
— É coisa boa de se comer?
— Não. Estragaria o seu estômago — disse ele, rindo.
— É coisa para ler, heim?
— O senhor pode ler.
— Coisa para a gente sentar-se?
— O senhor pode sentar-se nela, ah, ah!
— Para vestir?
— Não. O senhor não pode vesti-la.
— Bem, eu acho que não posso adivinhar o que é — disse ele sorrindo alegremente.
Na esperança de que os dois centavos que invariavelmente recebia do avô todos os domingos pudessem ser aumentados para três, o pequeno deixou escapar um indício.
— Todos nós — papai, mamãe, Marie, tia Truns, tio Dirk, tio Piet, tio Henk bem vestido com seu uniforme e os garotos — tivemos que ficar bem quietinhos por mais de meia hora, para conseguir a coisa.
— Ah, sim? — e o velho meneou a cabeça. — E isso será posto numa moldura?
— Não tenho licença para dizer.
Uma hora mais tarde Henk entrou para tomar um gole de qualquer coisa.
— Pois é, papai, o senhor terá uma surpresa na Quarta-feira. Vai haver alguma coisa que o senhor nunca viu igual antes. Jet queria lhe dar uma Bíblia nova. Dirk preferia uma poltrona, e Marie um sobretudo. Mas eu bati o pé; sei que o senhor não ligaria a coisas como essas. Assim, eu disse... Bem, o senhor vai ver. Não tem graça se souber antes.
— Aposto que eu posso adivinhar o que é. Posso sentir o cheiro no ar.
— Pois eu aposto com o senhor. Mesmo se o senhor ficar imaginando o dia inteiro e a noite inteira...
Por um momento o velho permaneceu silencioso, a pensar, por detrás de uma nuvem azulada de fumo; e de repente disse:
— É uma coisa quadrada. Tem vinte e oito olhos, vinte e oito mãos, vinte e oito orelhas e quatorze bocas. Não estou longe, estou?
— Puxa vida! — exclamou Henk. — Será que já deram com a língua nos dentes? Bem, e o senhor está contente?
— Eu estava mesmo para lhe dizer — continuou o avô — que você precisava tirar uma fotografia antes de partir para as Índias. Nós não nos veremos de novo tão cedo.
Mais tarde, no mesmo dia, Dirk e tia Jet forneceram maiores indícios da grande surpresa, e ficaram desapontados quando verificaram que outros haviam revelado o segredo. Agora que aquilo não era mais um segredo, todos concordaram em que a fotografia era, afinal de contas, o melhor presente, bem superior ao que teria sido a Bíblia, a poltrona ou o sobretudo. Uma fotografia da família era, bem pesadas as coisas, um presente para todos e para todo o tempo. Vovô receberia uma cópia grande, numa moldura, enquanto os outros teriam cópias comuns, sem moldura. Cada um deles, tanto os pequenos quanto os adultos, encheram-se da mais aguda curiosidade, à espera de poder ver a fotografia.
Terça-feira à noite, após vovô ter-se recolhido (um velho senhor de 70 anos não pode ficar acordado até tarde), Dirk, Piet e Henk enfeitaram a sala de estar em grande estilo. Bandeirolas e festões decoraram o alto das paredes e fizeram com que o aposento parecesse o local de um casamento. Acima do espelho dependuraram uma folha de cartolina, na qual letras prateadas, recortadas por Truns, diziam o seguinte: Que Deus Lhe Dê Muitos Anos Mais Para Viver Entre Seus Filhos e Netos. Ao redor dos braços e no encosto da poltrona em que morrera a Vovó, fora entretecida uma grinalda de rosas de papel.
Para que o velho não suspeitasse o que eles faziam, moveram-se calçados apenas em meias. E para não acordá-lo, prenderam as decorações com grampos de cabelo, em vez de usarem martelo e pregos. Jet e Marie tiveram que voltar para casa com os cabelos soltos, pois usaram todos os seus grampos.
Na manhã da grande festividade, o sol refulgiu brilhantemente nos cortinados de tule, e de tal maneira dourou as flores nas janelas, que tornou impossível a não integração num clima de dia festivo. Nessa amável manhã a sala inteira, alegrada com os festões e as bandeirolas, apresentava-se de fato extraordinariamente grandiosa. Às nove horas ofereceram ao vovô uma grande chávena de chá, acompanhada de duas fatias de pão com manteiga. Era preciso mantê-lo lá em cima até que a fotografia chegasse, às dez. O fotógrafo prometera entregá-la a Dirk, a essa hora, e naturalmente cumpriria a sua palavra.
Todos se haviam vestido da melhor maneira. Jan de Jet ensaiava o poema que iria recitar para o avô quando este chegasse. Os passos dele eram agora audíveis; ele andava lá em cima de um lado para outro. Já havia chamado duas vezes, perguntando quanto tempo teria que esperar.
À batida das dez, Dirk entrou pelo pequeno jardim, vindo da rua. Mas suas mãos estavam vazias e sua expressão era lastimosa.
— Onde está a fotografia? — gaguejou Jet, tremendo de excitação. — Ele não a entregou a você?
— Você não a trouxe consigo? — perguntou Marie. — Pelo amor de Deus, diga alguma coisa! Por que está parado desse jeito?
— O velho unha-de-fome! — rosnou Dirk, cerrando os punhos. — Ele a mandou, sem dúvida, mas com a conta a ser paga à vista.
— Sim, e ele que prometeu... Gostaria de rebentar-lhe os dentes! Como se eu não fosse pagá-lo!
— Então, por que você não lhe deu o dinheiro? — perguntou Truns, com perfeita inocência, embora já estivesse determinada a não pagar a sua quota enquanto a fotografia não tivesse sido entregue. — Nós todos estamos prontos a entrar com a nossa parte.
— Que diabo! — assanhou-se Dirk. — Você anda com tanto dinheiro sobrando no bolso? Você esperava que eu pagasse o homem com o dinheiro da caixa da mercearia?
— Calma, calma! — disse Frans, tentando suavizar as coisas. — Ninguém poderia exigir isso de você. Afinal de contas, o fotógrafo não disse a nós todos que não teríamos de pagar nada se a fotografia não saísse boa? Pagamento à vista, que idéia! Não se pode pedir a ninguém que compre nabos em sacos fechados, sem examiná-los antes!
— Bem, será uma surpresa para nós todos — disse Piet, que estava perfeitamente desinteressado acerca da questão do pagamento.
Nesse momento entrou Henk.
— Então, onde está ela? — perguntou, com o ar importante de quem havia cogitado da idéia em primeiro lugar e já pago a sua quota.
— Podemos esperar sentados — respondeu Jet. — Esse sórdido fotógrafo não a entregará sem o pagamento.
— Então?...
— Então coisa nenhuma! — disse asperamente Dirk. — Eu não tinha o que faltava pagar, e o entregador levou a fotografia de volta.
— Bom Deus! — disse Henk. — Eu pensei que você conhecesse o sujeito. Você combinou as coisas.
— Eu posso obrigar o sujeito a entregá-la? — disse Dirk. — Fui procurá-lo, mas ele não estava; não voltará até a tarde. Se você tivesse pago a sua parte, eu não teria ficado com cara de idiota.
— Não me diga que, se tivesse tentado...
— Você é assim tão liberal? — replicou Dirk com calor. — Se em vez disso tivéssemos comprado a poltrona, não teríamos que receber coisa que não tivéssemos visto.
Em meio a essa discussão, a porta rangeu e vovô apareceu. Já havia chamado três ou quatro vezes do topo da escada; queria saber quando poderia descer, e estava curioso por conhecer a razão da contenda.
— Uma vez que parece que vocês me esqueceram — disse ele, radiante, — pensei que seria melhor eu mesmo dar uma olhadela, sim senhores.
Estava cuidadosamente barbeado e usava uma imaculada gravata branca. Fumava o novo cachimbo, dado por Jan como seu primeiro presente, quando lhe levara o chá, lá em cima. Olhava para a decoração com a vista turvada.
— Parabéns, papai! — gritou Jet, beijando as pergamináceas faces do velho. — Muitas outras felizes vezes!
Chegaram-se então os outros, cada um por sua vez, dirigindo-lhe as suas saudações de aniversário, enquanto ele se sentava na poltrona enfeitada e lia a inscrição na cartolina acima do espelho. Agradeceu em voz trêmula as suas atenções, meneando a cabeça. Depois que acabou, lançou o olhar em derredor, expectante, em busca do grande presente. E de seis bocas ouviu simultaneamente a história do trágico acontecimento e da inominável torpeza do fotógrafo.
Mas já antes da noitinha a felicidade estava restaurada: a fim de não desapontar seus numerosos filhos, filhas e netos, e turvar a glória do pretendido presente, o próprio avô completou a importância devida.
(Herman Haijermans, in Maravilhas do conto universal – Cultrix, SP, 1958)
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Jet, a filha mais velha, havia por algum tempo tido muito êxito, até o momento em que o marido fora internado no hospital. Era seu plano oferecer ao avô uma nova Bíblia com um fecho de ouro folheado, enquanto que cada um dos netos o presentearia com uma ninharia sem importância. Esse plano não exigia despesa excessiva, que pudesse ser mais tarde lamentada.
Dirk tinha seis anos menos que a irmã. Três outros irmãos e irmãs haviam falecido ainda ao tempo em que a mãe deles era viva. Dirk pouco ligou à proposta da irmã; era de opinião que se o avô ia possuir uma Bíblia com um fecho de ouro, não deixaria absolutamente de usar a velha Bíblia, que havia sempre lido em companhia da mulher. Além de tudo, Dirk possuía planos próprios, e cada um tinha direito às suas convicções. Ele não entrava numa igreja havia anos, e certamente votaria contra a idéia da Bíblia. Se eles todos deviam cotizar-se para dar um presente, era preciso ter-se o assentimento de todos. Ora, Dirk havia visto uma esplêndida poltrona na vitrina de uma loja de móveis onde todos os preços haviam sofrido uma redução de vinte por cento. Oferecendo-a ao velho, algumas palavras bem escolhidas poderiam ser-lhe endereçadas com o peculiar sentido de augurar-lhe descanso nos últimos anos de sua vida. Além disso, a poltrona em que ele lia o seu jornal junto à janela era uma ruína; suas molas já cutucavam o assento.
Marie era a segunda filha. Havia sido separada do marido a expensas do Estado, e agora esperava o quarto filho, antes de ser dada a sentença final. Só mesmo Dirk poderia propor uma coisa daquelas! Ninguém forçava o avô a sentar-se sobre as molas da velha poltrona; além do mais, não fora vovô quem arruinara o assento por muito usá-lo? Vovô dissera isso mil vezes. Se a família toda ia dar-lhe um presente, devia ser uma coisa útil, e não algo estúpido. Agora, um sobretudo, um gorro quentinho, um par de luvas ou uns chinelos bons e fortes, isso, sim, seria prático e quase nada dispendioso.
Piet e Frans, nenhum deles havia contribuído com alguma coisa para a caixa familiar durante o ano anterior. Haviam visitado várias vezes a casa de penhores e tiveram que ser auxiliados pelo avô. Fizeram mais barulho que todos os outros e manifestaram-se irrevogavelmente contra a Bíblia, a poltrona e o sobretudo. Tinham idéias grandiosas, porém sem o cum quibus para realizá-las; falaram em decorar a sala de estar com bandeirolas e festões, enquanto vovô estivesse dormindo, e calcularam o custo de um generoso estoque de aguardente, licores e gim.
Henk era o mais novo. Havia recentemente se engajado para o serviço nas Índias Orientais. Apesar de haver já há muito gasto o último vintém do prêmio do alistamento, achava que o problema da decisão acerca do presente (restavam poucos dias para a data do aniversário) deveria ser resolvido com oferecer-se ao velho uma fotografia da família inteira, filhos e netos, todos juntos num grupo. Seria uma bela coisa para todos, especialmente para o próprio Henk, quando estivesse longe, nas Índias.
Depois de alguma discussão, essa proposta foi aceita. E no dia seguinte lá se dirigiram eles ao estabelecimento fotográfico e posaram. Membro algum da família faltou, e mesmo Toon, o marido de Jet, que havia saído do hospital na noite anterior, com a barba muito crescida, conseguiu estar presente. As mulheres — Marie, Truns e Jet — sentaram-se em cadeiras, no centro do grupo. Os homens — Dirk, Piet, Frans, Henk e Toon — puseram-se atrás, de pé, Piet na extremidade esquerda, com seu filho de um ano e meio, e Henk, no seu uniforme novo, na extremidade direita, com Santje, a mais nova das choramingas crianças de Jet. Os outros cinco netos ajoelharam-se no assoalho, apoiados aos joelhos das mães.
Eram quatorze ao todo, um número a mais que o aziago. Disse o fotógrafo que raramente tivera o prazer de ver um grupo mais distinto no seu estúdio. Entretanto, não foi fácil para o artista executar o seu trabalho. Willy de Piet sustentou um berreiro contínuo, pois o amedrontava o barbudo sujeito que metia a cabeça sob o pano negro; e quando o fotógrafo sacudiu uma boneca sobre a câmera, a fim de atrair a atenção dos outros pequenos, Willy deu tal grito que Truns teve de levantar-se para acalmá-lo. Isso continuou por um inteiro quarto de hora, e quando finalmente conseguiram desembaraçar-se, estavam em tal tensão que se punham a rir quando alguém suspirava ou falava. As primeiras duas tentativas de pose não tiveram êxito. Na primeira, Santje espirrou — de propósito, pareceu — e justamente quando o fotógrafo acabou de contar até três, Henk berrou. Na segunda vez, Kareltje de Marie pôs-se de pé muito cedo, porque pensou que a coisa terminara, e queria acertar as contas com Jan de Jet que o havia beliscado. Cada uma das crianças recebeu o seu puxão de orelha. Depois que amainou a choradeira, e que cada um se manteve quieto, na sua melhor posição domingueira, tudo foi bem na terceira tentativa.
Ninguém esperava que o fotógrafo fosse pedir um pagamento imediato; mas, conhecendo ele Dirk, que trabalhava na mercearia em frente, insistiu no recebimento. O rapaz deu-lhe por conta dois florins, e o profissional prometeu que o retrato estaria pronto na Quarta-feira de manhã, às dez horas.
— Mas — perguntou prudentemente Dirk, — e se a coisa não sair bem?
— Nesse caso — replicou o fotógrafo, — vocês não precisam pagar.
— Muito bem, então — disse Dirk, com evidente alívio.
Naturalmente tudo foi conservado em segredo para o avô. Quer dizer: sobre o caso ele foi informado, até à noitinha, por não mais que quatro membros da família. Jan de Jet havia aparecido à tarde, com sua irmã, para pedir balas e dois centavos.
— Vovô — disse ele —, eu sei o que o senhor vai ganhar no seu aniversário; o senhor nem pode imaginar o que é.
O velho riu, e tirando o cachimbo de entre as desdentadas gengivas, perguntou:
— É uma coisa muito bonita, hein, Jan?
— Nós não devemos dizer, vovô.
— É coisa boa de se comer?
— Não. Estragaria o seu estômago — disse ele, rindo.
— É coisa para ler, heim?
— O senhor pode ler.
— Coisa para a gente sentar-se?
— O senhor pode sentar-se nela, ah, ah!
— Para vestir?
— Não. O senhor não pode vesti-la.
— Bem, eu acho que não posso adivinhar o que é — disse ele sorrindo alegremente.
Na esperança de que os dois centavos que invariavelmente recebia do avô todos os domingos pudessem ser aumentados para três, o pequeno deixou escapar um indício.
— Todos nós — papai, mamãe, Marie, tia Truns, tio Dirk, tio Piet, tio Henk bem vestido com seu uniforme e os garotos — tivemos que ficar bem quietinhos por mais de meia hora, para conseguir a coisa.
— Ah, sim? — e o velho meneou a cabeça. — E isso será posto numa moldura?
— Não tenho licença para dizer.
Uma hora mais tarde Henk entrou para tomar um gole de qualquer coisa.
— Pois é, papai, o senhor terá uma surpresa na Quarta-feira. Vai haver alguma coisa que o senhor nunca viu igual antes. Jet queria lhe dar uma Bíblia nova. Dirk preferia uma poltrona, e Marie um sobretudo. Mas eu bati o pé; sei que o senhor não ligaria a coisas como essas. Assim, eu disse... Bem, o senhor vai ver. Não tem graça se souber antes.
— Aposto que eu posso adivinhar o que é. Posso sentir o cheiro no ar.
— Pois eu aposto com o senhor. Mesmo se o senhor ficar imaginando o dia inteiro e a noite inteira...
Por um momento o velho permaneceu silencioso, a pensar, por detrás de uma nuvem azulada de fumo; e de repente disse:
— É uma coisa quadrada. Tem vinte e oito olhos, vinte e oito mãos, vinte e oito orelhas e quatorze bocas. Não estou longe, estou?
— Puxa vida! — exclamou Henk. — Será que já deram com a língua nos dentes? Bem, e o senhor está contente?
— Eu estava mesmo para lhe dizer — continuou o avô — que você precisava tirar uma fotografia antes de partir para as Índias. Nós não nos veremos de novo tão cedo.
Mais tarde, no mesmo dia, Dirk e tia Jet forneceram maiores indícios da grande surpresa, e ficaram desapontados quando verificaram que outros haviam revelado o segredo. Agora que aquilo não era mais um segredo, todos concordaram em que a fotografia era, afinal de contas, o melhor presente, bem superior ao que teria sido a Bíblia, a poltrona ou o sobretudo. Uma fotografia da família era, bem pesadas as coisas, um presente para todos e para todo o tempo. Vovô receberia uma cópia grande, numa moldura, enquanto os outros teriam cópias comuns, sem moldura. Cada um deles, tanto os pequenos quanto os adultos, encheram-se da mais aguda curiosidade, à espera de poder ver a fotografia.
Terça-feira à noite, após vovô ter-se recolhido (um velho senhor de 70 anos não pode ficar acordado até tarde), Dirk, Piet e Henk enfeitaram a sala de estar em grande estilo. Bandeirolas e festões decoraram o alto das paredes e fizeram com que o aposento parecesse o local de um casamento. Acima do espelho dependuraram uma folha de cartolina, na qual letras prateadas, recortadas por Truns, diziam o seguinte: Que Deus Lhe Dê Muitos Anos Mais Para Viver Entre Seus Filhos e Netos. Ao redor dos braços e no encosto da poltrona em que morrera a Vovó, fora entretecida uma grinalda de rosas de papel.
Para que o velho não suspeitasse o que eles faziam, moveram-se calçados apenas em meias. E para não acordá-lo, prenderam as decorações com grampos de cabelo, em vez de usarem martelo e pregos. Jet e Marie tiveram que voltar para casa com os cabelos soltos, pois usaram todos os seus grampos.
Na manhã da grande festividade, o sol refulgiu brilhantemente nos cortinados de tule, e de tal maneira dourou as flores nas janelas, que tornou impossível a não integração num clima de dia festivo. Nessa amável manhã a sala inteira, alegrada com os festões e as bandeirolas, apresentava-se de fato extraordinariamente grandiosa. Às nove horas ofereceram ao vovô uma grande chávena de chá, acompanhada de duas fatias de pão com manteiga. Era preciso mantê-lo lá em cima até que a fotografia chegasse, às dez. O fotógrafo prometera entregá-la a Dirk, a essa hora, e naturalmente cumpriria a sua palavra.
Todos se haviam vestido da melhor maneira. Jan de Jet ensaiava o poema que iria recitar para o avô quando este chegasse. Os passos dele eram agora audíveis; ele andava lá em cima de um lado para outro. Já havia chamado duas vezes, perguntando quanto tempo teria que esperar.
À batida das dez, Dirk entrou pelo pequeno jardim, vindo da rua. Mas suas mãos estavam vazias e sua expressão era lastimosa.
— Onde está a fotografia? — gaguejou Jet, tremendo de excitação. — Ele não a entregou a você?
— Você não a trouxe consigo? — perguntou Marie. — Pelo amor de Deus, diga alguma coisa! Por que está parado desse jeito?
— O velho unha-de-fome! — rosnou Dirk, cerrando os punhos. — Ele a mandou, sem dúvida, mas com a conta a ser paga à vista.
— Sim, e ele que prometeu... Gostaria de rebentar-lhe os dentes! Como se eu não fosse pagá-lo!
— Então, por que você não lhe deu o dinheiro? — perguntou Truns, com perfeita inocência, embora já estivesse determinada a não pagar a sua quota enquanto a fotografia não tivesse sido entregue. — Nós todos estamos prontos a entrar com a nossa parte.
— Que diabo! — assanhou-se Dirk. — Você anda com tanto dinheiro sobrando no bolso? Você esperava que eu pagasse o homem com o dinheiro da caixa da mercearia?
— Calma, calma! — disse Frans, tentando suavizar as coisas. — Ninguém poderia exigir isso de você. Afinal de contas, o fotógrafo não disse a nós todos que não teríamos de pagar nada se a fotografia não saísse boa? Pagamento à vista, que idéia! Não se pode pedir a ninguém que compre nabos em sacos fechados, sem examiná-los antes!
— Bem, será uma surpresa para nós todos — disse Piet, que estava perfeitamente desinteressado acerca da questão do pagamento.
Nesse momento entrou Henk.
— Então, onde está ela? — perguntou, com o ar importante de quem havia cogitado da idéia em primeiro lugar e já pago a sua quota.
— Podemos esperar sentados — respondeu Jet. — Esse sórdido fotógrafo não a entregará sem o pagamento.
— Então?...
— Então coisa nenhuma! — disse asperamente Dirk. — Eu não tinha o que faltava pagar, e o entregador levou a fotografia de volta.
— Bom Deus! — disse Henk. — Eu pensei que você conhecesse o sujeito. Você combinou as coisas.
— Eu posso obrigar o sujeito a entregá-la? — disse Dirk. — Fui procurá-lo, mas ele não estava; não voltará até a tarde. Se você tivesse pago a sua parte, eu não teria ficado com cara de idiota.
— Não me diga que, se tivesse tentado...
— Você é assim tão liberal? — replicou Dirk com calor. — Se em vez disso tivéssemos comprado a poltrona, não teríamos que receber coisa que não tivéssemos visto.
Em meio a essa discussão, a porta rangeu e vovô apareceu. Já havia chamado três ou quatro vezes do topo da escada; queria saber quando poderia descer, e estava curioso por conhecer a razão da contenda.
— Uma vez que parece que vocês me esqueceram — disse ele, radiante, — pensei que seria melhor eu mesmo dar uma olhadela, sim senhores.
Estava cuidadosamente barbeado e usava uma imaculada gravata branca. Fumava o novo cachimbo, dado por Jan como seu primeiro presente, quando lhe levara o chá, lá em cima. Olhava para a decoração com a vista turvada.
— Parabéns, papai! — gritou Jet, beijando as pergamináceas faces do velho. — Muitas outras felizes vezes!
Chegaram-se então os outros, cada um por sua vez, dirigindo-lhe as suas saudações de aniversário, enquanto ele se sentava na poltrona enfeitada e lia a inscrição na cartolina acima do espelho. Agradeceu em voz trêmula as suas atenções, meneando a cabeça. Depois que acabou, lançou o olhar em derredor, expectante, em busca do grande presente. E de seis bocas ouviu simultaneamente a história do trágico acontecimento e da inominável torpeza do fotógrafo.
Mas já antes da noitinha a felicidade estava restaurada: a fim de não desapontar seus numerosos filhos, filhas e netos, e turvar a glória do pretendido presente, o próprio avô completou a importância devida.
(Herman Haijermans, in Maravilhas do conto universal – Cultrix, SP, 1958)
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O OVO EMPRESTADO - Conto tradicional hebreu
Num dia em que os pajens do rei David tomavam refeição juntos, foram-lhes servidos ovos cozidos. Um dos pajens estava mais faminto do que os outros, e consumiu antes a sua parte. Quando os demais começaram a comer, ele ficou com vergonha de estar com o prato vazio, e abordou o colega mais próximo:
— Empreste-me um dos seus ovos.
— Com prazer. Mas desde que você me prometa devolvê-lo, quando eu o solicitar, com todos os rendimentos que ele me teria proporcionado.
O pajem não viu inconveniente em assumir esse compromisso, e aceitou. Pôde então adornar com um ovo a desolada solidão do seu prato.
Muito tempo depois, o que havia feito o empréstimo veio cobrá-lo.
— Muito bem — concordou o pajem. — Então eu vou lhe dar um ovo, pois foi este o empréstimo que você me fez.
— Nada disso! Você tem de acrescentar os rendimentos que o meu ovo me daria durante todo esse tempo.
Discutiram, mas não havia meio de chegar a um acordo, pois os cálculos de rendimentos geraram números estratosféricos. Decidiram então apelar para o julgamento do rei David.
Quando entravam no palácio, encontraram Salomão, filho do rei, que tinha por costume perguntar sempre o objetivo da visita. Fez a pergunta habitual aos dois jovens, que lhe deram todas as explicações. Salomão então lhes disse:
— Submetam então a vossa querela a meu pai, e depois digam-me qual terá sido a sentença.
Os jovens se apresentaram a David e lhe expuseram o compromisso que havia entre os dois, de devolução do ovo com os rendimentos que teria proporcionado. O compromisso havia sido assumido diante de testemunhas, e foi fácil comprová-lo. Então David sentenciou:
— Assim sendo, a sua obrigação é pagar.
— Nunca me neguei a pagar. O que não concordo é com o volume da dívida que ele me está cobrando.
Dirigindo-se ao credor, David perguntou:
— Quais são as contas que você está fazendo?
— Senhor, no prazo de um ano um ovo produz uma galinha. Essa galinha põe no mínimo vinte ovos, que no fim de um ano se transformam em vinte galinhas. Cada uma delas, por sua vez, põe vinte ovos que geram vinte galinhas, perfazendo quatrocentas. O cálculo se estende a cinco anos, que é o tempo decorrido desde o empréstimo.
— Acho o cálculo bem feito. Neste caso, é isso o que você tem que pagar — disse o rei, dirigindo-se ao devedor.
Saiu dali o pajem decepcionado, vendo que de acordo com esses cálculos os rendimentos se transformaram numa dívida absurda. Na saída, Salomão lhe perguntou:
— Qual foi a sentença do rei?
— Ele disse que tenho de pagar tudo o que o meu companheiro sustenta que lhe devo. Mas nem vejo como o conseguirei, pois a quantia é altíssima.
— Não se desespere por isso. Vou lhe dar um bom conselho, que resolverá o problema.
— Deus o recompense por isso!
— Faça então o seguinte — e deu-lhe então Salomão as orientações sobre como deveria proceder.
No dia seguinte o pajem se pôs à margem de uma estrada muito movimentada, com um prato de favas cozidas na mão. Quando se aproximava um grupo de soldados ou pessoas de importância, ele se punha a escavar a terra, como se estivesse plantando algo. Estranhando essa atitude, muitos perguntavam:
— O que está fazendo aí?
— Quero ver se estas favas cozidas conseguem germinar.
— Você deve estar louco! Onde já se viu favas cozidas germinarem!?
— Nada mais natural. Seria mais assombroso alguém conseguir obter uma galinha de um ovo cozido.
O pajem passou todo o dia dando a mesma resposta a todos que o abordavam. Como era de esperar, logo o fato chegou ao conhecimento do rei David, que entendeu a mensagem e ordenou o comparecimento do pajem à sua presença.
— Quem te sugeriu o que andas fazendo, de semear favas cozidas?
— Por Deus, senhor! Foi o vosso filho Salomão.
David mandou chamar o príncipe, e lhe perguntou:
— Como te ocorreu dar ao pajem esse conselho, que resolve tão bem o problema?
— Como poderia o jovem responder por coisas que se baseiam apenas num disparatado pressuposto? Depois que um ovo é colocado em água fervendo, já não pode ser considerado uma galinha em potencial. Um ovo cozido é tão apto para germinar como uma fava cozida. Então...
David não poderia negar a evidência. Chamou à sua presença os dois contendores, e ordenou ao devedor:
— Devolva ao credor somente um ovo, e tua dívida estará quitada.
Por isso deve-se sempre seguir o provérbio: “Deixa a sentença nas mãos do rei, e a justiça nas mãos do filho”.
(Conto tradicional hebreu, in R. Menéndez Pidal, Antología de cuentos – Labor, Barcelona, 1953)
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— Empreste-me um dos seus ovos.
— Com prazer. Mas desde que você me prometa devolvê-lo, quando eu o solicitar, com todos os rendimentos que ele me teria proporcionado.
O pajem não viu inconveniente em assumir esse compromisso, e aceitou. Pôde então adornar com um ovo a desolada solidão do seu prato.
Muito tempo depois, o que havia feito o empréstimo veio cobrá-lo.
— Muito bem — concordou o pajem. — Então eu vou lhe dar um ovo, pois foi este o empréstimo que você me fez.
— Nada disso! Você tem de acrescentar os rendimentos que o meu ovo me daria durante todo esse tempo.
Discutiram, mas não havia meio de chegar a um acordo, pois os cálculos de rendimentos geraram números estratosféricos. Decidiram então apelar para o julgamento do rei David.
Quando entravam no palácio, encontraram Salomão, filho do rei, que tinha por costume perguntar sempre o objetivo da visita. Fez a pergunta habitual aos dois jovens, que lhe deram todas as explicações. Salomão então lhes disse:
— Submetam então a vossa querela a meu pai, e depois digam-me qual terá sido a sentença.
Os jovens se apresentaram a David e lhe expuseram o compromisso que havia entre os dois, de devolução do ovo com os rendimentos que teria proporcionado. O compromisso havia sido assumido diante de testemunhas, e foi fácil comprová-lo. Então David sentenciou:
— Assim sendo, a sua obrigação é pagar.
— Nunca me neguei a pagar. O que não concordo é com o volume da dívida que ele me está cobrando.
Dirigindo-se ao credor, David perguntou:
— Quais são as contas que você está fazendo?
— Senhor, no prazo de um ano um ovo produz uma galinha. Essa galinha põe no mínimo vinte ovos, que no fim de um ano se transformam em vinte galinhas. Cada uma delas, por sua vez, põe vinte ovos que geram vinte galinhas, perfazendo quatrocentas. O cálculo se estende a cinco anos, que é o tempo decorrido desde o empréstimo.
— Acho o cálculo bem feito. Neste caso, é isso o que você tem que pagar — disse o rei, dirigindo-se ao devedor.
Saiu dali o pajem decepcionado, vendo que de acordo com esses cálculos os rendimentos se transformaram numa dívida absurda. Na saída, Salomão lhe perguntou:
— Qual foi a sentença do rei?
— Ele disse que tenho de pagar tudo o que o meu companheiro sustenta que lhe devo. Mas nem vejo como o conseguirei, pois a quantia é altíssima.
— Não se desespere por isso. Vou lhe dar um bom conselho, que resolverá o problema.
— Deus o recompense por isso!
— Faça então o seguinte — e deu-lhe então Salomão as orientações sobre como deveria proceder.
No dia seguinte o pajem se pôs à margem de uma estrada muito movimentada, com um prato de favas cozidas na mão. Quando se aproximava um grupo de soldados ou pessoas de importância, ele se punha a escavar a terra, como se estivesse plantando algo. Estranhando essa atitude, muitos perguntavam:
— O que está fazendo aí?
— Quero ver se estas favas cozidas conseguem germinar.
— Você deve estar louco! Onde já se viu favas cozidas germinarem!?
— Nada mais natural. Seria mais assombroso alguém conseguir obter uma galinha de um ovo cozido.
O pajem passou todo o dia dando a mesma resposta a todos que o abordavam. Como era de esperar, logo o fato chegou ao conhecimento do rei David, que entendeu a mensagem e ordenou o comparecimento do pajem à sua presença.
— Quem te sugeriu o que andas fazendo, de semear favas cozidas?
— Por Deus, senhor! Foi o vosso filho Salomão.
David mandou chamar o príncipe, e lhe perguntou:
— Como te ocorreu dar ao pajem esse conselho, que resolve tão bem o problema?
— Como poderia o jovem responder por coisas que se baseiam apenas num disparatado pressuposto? Depois que um ovo é colocado em água fervendo, já não pode ser considerado uma galinha em potencial. Um ovo cozido é tão apto para germinar como uma fava cozida. Então...
David não poderia negar a evidência. Chamou à sua presença os dois contendores, e ordenou ao devedor:
— Devolva ao credor somente um ovo, e tua dívida estará quitada.
Por isso deve-se sempre seguir o provérbio: “Deixa a sentença nas mãos do rei, e a justiça nas mãos do filho”.
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